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UMA BELA DUPLA

Uma bela dupla

Ugo Giorgetti

Nesse futebol brasileiro atual é preciso usar lupa para descobrir uma jogada de classe, um lance de talento ou uma qualidade rara num jogador ou time. Vivo à procura dessas exceções e quase sempre me frustro. Nesse momento, apesar de tudo, acho que vi alguma coisa. Trata-se do time do Botafogo, não apenas por estar no topo da tabela. Isso qualquer um pode conseguir nesse campeonato nivelado pela extremidade inferior. Mas por outras coisas.

O despontar de alguns jogadores de nível superior é uma delas, mas, principalmente, uma grande novidade que passa além de simples revelação de jovens de talento. Estou falando da relação especial que se estabeleceu entre um grande craque e seu treinador. De fato, para quem vê o Botafogo jogar e assiste às entrevistas depois das partidas, ficam mais do que claras as razões que levaram esse time a liderar o campeonato.

Há muito não se via no futebol, pelo menos que eu tenha notado, um treinador se apoiar tanto no seu craque para melhor se comunicar com o resto da equipe. O que torna a coisa possível, no caso, é que se trata de um jogador e de um treinador excepcionais em diversos sentidos.

Conheci Oswaldo de Oliveira uma noite numa mesa do antigo e desaparecido Bar do Elias, numa de suas breves estadas em São Paulo. Ele não era muito de frequentar o Elias e estava lá por alguma razão prática que não lembro. Recordo que fiquei muito impressionado com sua educação, sagacidade e conhecimento de futebol. É um treinador diferente, que acredita no trato civilizado com jogadores, dirigentes e imprensa. Sempre polido e atencioso é, por outro lado, uma personalidade forte, que não hesita, para manter sua independência e dignidade, em sair do cargo poucos dias antes de ganhar um campeonato ao bater com um dirigente prepotente, como aconteceu no Vasco. Por isso é um treinador cuja carreira esteve sempre sujeita a altos e baixos. Mais por causa de suas qualidades do que por seus defeitos. Não é truculento, não é xerife, não é durão, não enquadra ninguém. Orienta apenas, e muito bem.

Seedorf, por sua vez, era um personagem necessário ao futebol brasileiro como exemplo aos jovens iniciantes. É, antes de tudo, um craque. De carreira internacional, de fama mundial, veio para nos mostrar o que é uma verdadeira celebridade. Celebridade é alguém que externamente parece um cidadão comum, que faz questão de se disfarçar de cidadão comum.

Se você se aproximar de uma pessoa “inusitada”, que traz na aparência, do corte de cabelo aos sapatos, todos os sinais convencionais da “modernidade” e da “criatividade” que a publicidade, as novelas e as colunas sociais disseminam diariamente, esteja certo: não é uma celebridade. Mas se você assistir a uma entrevista de Seedorf vai entender melhor o que isso significa.

Seedorf é uma celebridade a serviço do time e de seu treinador. Nas entrevistas coloca-se como um interlocutor do técnico, como alguém que dialoga com ele porque, nas suas próprias palavras, “no campo eu estou mais perto dos outros jogadores e posso transmitir melhor as instruções”. É muito frequente, durante as transmissões dos jogos, a câmera flagrar Seedorf trocando ideias com Oswaldo de Oliveira à beira do campo. Digo trocando ideias, não um, de dedo em riste, fazendo sinais que ninguém entende e outro de cabeça baixa, ou olhando para o lado. Eles conversam como quem tem uma missão em comum: fazer o Botafogo ganhar. E um precisa do outro.

Não é necessário que o Botafogo ganhe o título, não precisa mostrar mais nada. Se contribuir para acabar com essa relação de “professor” e “atleta”, que infesta o futebol brasileiro, será suficiente. Talvez quando terminar esse campeonato os professores tenham voltado a ser apenas técnicos de futebol. E talvez, assim, comecem a reaparecer em nossos campos tão desertos alguns Seedorf.

Ugo Giorgetti, O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 2013

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