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ANATOMIA DE UM ERRO

 

 

Anatomia de um erro

Na coluna do último domingo fiz uma crítica à política de se trazer médicos estrangeiros, sem o devido processo de revalidação de diploma, para trabalhar nos locais mais distantes do País, onde hoje há grande dificuldade de fixar profissionais. Nessa semana, o governo colocou lenha na fogueira com o anúncio de medidas para tentar melhorar a saúde no Brasil.

Não acredito que aumentar a duração do curso de Medicina de seis para oito anos resolva a questão. Um aluno típico leva, em média, um ou dois anos para conseguir ingressar em uma faculdade, já que o curso continua hoje um dos mais disputados. Em uma universidade pública, demora ainda mais! Entre vestibular, faculdade e residência, com a nova duração, esse processo de formação poderia levar até 12 anos, o que dá tempo de fazer pelo menos três cursos regulares de graduação.

A situação cria também um “limbo” para os profissionais que efetuarem o primeiro ciclo, de seis anos. Eles teriam uma licença provisória, que seria efetivada depois de passarem dois anos atendendo no Sistema Único de Saúde (SUS). Como eles tomariam condutas, sem estarem amparados legalmente? Quem se responsabilizaria? De onde viria o dinheiro para pagar as faculdades? Muitas perguntas para um pacote que pretende salvar a saúde!

Mais: o plano seria válido a partir do ingresso nas faculdades de Medicina em 2015 e promete despejar 20 mil médicos no SUS a partir de 2021. Ou seja, até lá, o buraco continua e, eventualmente, será preenchido pelos médicos estrangeiros, que vão passar por uma capacitação relâmpago de três semanas (quanto tempo, não?).

O plano do governo promete criar mais faculdades e 12 mil vagas. É bom lembrar que muitas das faculdades que existem hoje não dão conta do recado, sem infraestrutura e corpo docente adequados, sem hospitais-escola para o aprendizado ideal, elas acabam formando médicos pouco preparados. São esses médicos que o governo planeja “despejar” no sistema público de saúde?

Vamos a algumas ideias? Se existe essa verba para saúde, por que não investir imediatamente no SUS? Mais equipamentos, mais segurança, melhor treinamento dos profissionais, ciclos de capacitação permanentes, salários adequados, atendimento em mais turnos, mais leitos e um sistema mais inteligente de ligação das unidades básicas com os hospitais de ponta podem ser algumas das medidas.

Em vez de aumentar o tempo da faculdade, por que não criar mais vagas de residência nas regiões mais distantes, com bolsas convidativas, para as áreas de saúde pública, medicina preventiva e medicina da família, que formariam médicos mais generalistas? Alunos poderiam passar parte do internato nesses locais, sob supervisão permanente.

Que tal usar a tecnologia (intranets, internet, supervisão online, em tempo real) para ligar os jovens médicos aos grandes centros de ensino, de maneira que eles não fossem deixados desamparados?

E, se em vez de tentar fixá-los por dois ou três anos, nos mais distantes rincões do País, não houvesse um sistema do tipo fly-in/fly-out? Assim, ficariam 15 dias na “base” e 15 dias em seu local de origem, estudando ou dando plantões em outras realidades. Haveria, assim, um revezamento de profissionais. Além disso, um plano de carreira poderia garantir que esses médicos fossem transferidos para outros centros à medida que tivessem mais tempo de serviço.

Para terminar, que tal um projeto que investisse verbas e esforços na melhoria das faculdades de Medicina já existentes (e principalmente naquelas que sabidamente têm problemas), em vez de sair criando cursos e vagas, sem nenhuma garantia de qualidade? Talvez mais realista e prático, o plano do governo não corra o risco de só perpetuar os erros e falhas que nosso sistema de saúde apresenta há décadas!

JAIRO BOUER – O Estado de São Paulo, 14 de julho de 2013

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