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NEYMAR NÃO É CRISTIANO

 

Los gringos John Carlin

Neymar não é Cristiano

Neymar sabe que Messi joga mais, sabe que ainda tem grandes lições a aprender, e assim diz

Certa vez, um jogador do Real Madrid me disse: “Muitas vezes penso que nós, jogadores, talvez sejamos os menos capacitados a falar com inteligência do esporte”. Foi profundamente reconfortante ouvir isso, para alguém que nem mesmo em seus sonhos mais ousados teria sido bom o bastante para jogar pelo Auckland ou Kashiwa mas tem a presunção de ganhar a vida escrevendo sobre futebol.

Tive a mesma sensação após ouvir Pelé declarar, antes da final do Mundial de Clubes, que Neymar era melhor que Messi. Teria sido extremamente sem noção até para uma criança de oito anos, e ouvi-la de um homem que muitos consideram como o maior jogador da história foi espantoso.

Mas quer saber? Não creio que Muricy Ramalho diz bobagem ao afirmar que Neymar pode um dia jogar no nível de Messi. O motivo para que eu acredite que isso é possível -repito: possível- é o mesmo para que eu creia que o mesmo jamais será verdade no caso de Cristiano Ronaldo. Neymar tem humildade, e humildade é inteligência; combiná-las conduz ao autoconhecimento, abre as portas ao aprendizado e à melhora pessoal.

Cristiano não consegue admitir de forma aberta e consciente que Messi é melhor que ele, embora no fundo deva saber disso. É por isso que ele tem uma cabeça confusa e vive consumido pela inveja, ressentimento e toda espécie de venenos mentais que acompanham esses sentimentos e, quando encara Messi em confronto direto, lhe transmitem mensagens debilitantes. Como vimos em seu desempenho horroroso pelo Real há 10 dias contra o Barça, Cristiano jamais ocupará posição na fileira de deuses do futebol, com Pelé, Maradona, Di Stéfano, Cruyff e Messi.

Neymar talvez. Porque, diferente de Cristiano -e, creio, também de Robinho-, sabe quem é e onde está. É franco, generoso, novo, aberto. Sabe que Messi joga mais, sabe que ainda tem grandes lições a aprender, e assim diz. Quando pede a camisa de Messi, a linguagem corporal é a de um estudante ansioso falando a um brilhante professor.

Para alguém tão jovem e talentoso, tão rico e famoso, e tão adulado, é muito admirável e impressionante. É o principal motivo para acreditar que, com o tempo, ele aproveitará ao máximo seu extraordinário talento natural. E mesmo que jamais venha a se tornar tão bom quanto Messi (e, para ser honesto, duvido que eu veja um gênio tão completo pelo resto da vida), estou certo: sempre gostarei de Neymar. E creio que muita gente também.

Folha de São Paulo, 20 de dezembro de 2011

 

 

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