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Sócrates conta como ajudou Casagrande e sonho de ser médico na praça

UOL Esporte: Sócrates, a gente pede muito que os atletas falem sobre os cartolas, se posicionem. É justo cobrar postura crítica e politização de um jogador que ainda depende do futebol e, portanto, está sujeito a reações?
Sócrates: Eu sempre digo que é um problema de formação. O ideal era passar por um processo educativo para você discernir o que é melhor para você. Agora, se você não tem capacidade de raciocínio, você não vai se colocar nunca. Eles estão em um mundo em que as suas opiniões são extremamente acompanhadas. E eles não sabem se colocar, não sabem quem são, não sabem que importância têm dentro do contexto social. Quem está dentro disso pode até se eximir de participar, mas ele não pode se deslocar do centro do pensamento, que é que nós vamos ter problemas na Copa do Mundo. Exigir demais de quem não tem formação é um absurdo. Agora exigir que se dê formação é obrigação do estado.

SÓCRATES FALA SOBRE COMO TENTOU AJUDAR CASAGRANDE NO CORINTHIANS

UOL Esporte: Qual é a importância do posicionamento do jogador?
Sócrates:
Uma coisa para mim é muito clara, e isso só ocorre no esporte, particularmente no futebol. É que o artista tem mais peso político do que seu empregador. Se ele tem peso político e econômico, não tem reação que o derrube. Não importa a reação que venha das esferas superiores, porque elas não são superiores. Ele tem a base popular. Que dirigente vai ter mais peso que o artista? Ele pode sofrer sanções dentro do meio, mas desde que consiga mobilizar essa base popular as sanções desaparecem.

UOL Esporte: O que você pode dizer sobre a Democracia Corintiana?
Sócrates:
O grande gancho daquilo lá, que é algo que devia ser mais valorizado, é você colocar no mesmo patamar de decisão coletiva pessoas de classes sociais distintas. Auxiliar de roupeiro ter o mesmo peso do dirigentes. Isso não existe. Isso foi o mais belo, o mais bonito e o mais rico. Todo o resto foi decorrente disso. Essa linguagem do futebol foi colocada para fora do clube em um momento interessante do país. Tornou-se muito maior do que deveria ser. Uma micro-sociedade de 30 pessoas não teria tanta importância política. Mas conseguimos mobilizar a sociedade para o processo de redemocratização do país.

UOL Esporte: Na época vocês lidavam com naturalidade com coisas que até hoje são tabu. Como vê a relação do jogador de futebol com bebida e concentração, por exemplo?
Sócrates:
Isso que você chama de elementos tradicionais retrógrados da sociedade conservadora do futebol têm um linguajar e uma ideologia toda própria, que é manter o atleta como criança. O meio do futebol quer que o jogador não tenha nem dois anos, quer que ele seja amamentado. Eu já vi jogador de seleção que oferece procuração de plenos poderes ao seu empresário. O cara pode mobilizar conta bancaria, vender e comprar imóveis… Pode fazer tudo. Isso é o extremo do extremo da criancice. O cara que não consegue administrar a própria vida vai administrar o quê?

UOL Esporte: Um dos símbolos da Democracia Corintiana, o Casagrande, sofreu com as drogas…
Sócrates:
O Casa é um dos que sofreu da doença social causada pelas drogas. Os dirigentes tiram a liberdade para a opinião pública, não para o jogador. Quando ele vai para o hotel ele leva uísque, maconha, crack na bolsa. Leva o que ele quiser.

SÓCRATES CONTA COMO SERGINHO CHULAPA BURLAVA A CONCENTRAÇÃO

 

UOL Esporte: Então o importante é a opinião pública não ficar sabendo…
Sócrates:
Se ele quiser consumir ele consome. O importante é a opinião pública. O meu ídolo [Serginho, ex-atacante de São Paulo e Santos] Chulapa sabia usar isso muito bem. O Chulapa passava cinco dias sem dormir. Saía do treino, ia para a noite, treinava de manhã e cochilava no almoço. Cinco dias na farra. Chegava no Morumbi [para a concentração] e dormia 48 horas. Ele estava preservado perante a opinião pública. Isso é profissionalismo? Não é. Agora tira a concentração dele. Ele tem de modificar todo o processo de agenda dele para não se expor tanto. Chulapa sabia usar isso muito bem.

UOL Esporte: Mas voltando ao Casagrande, vocês sabiam do vício dele? Tentaram ajudá-lo?
Sócrates:
Não. Eu, particularmente, não sabia. O que a gente tinha conhecimento era que ele estava em um meio, onde ele vivia, onde ele tinha nascido, que era meio pesado. E nós agimos nisso para trazê-lo para outro ambiente para ele ficar um pouco mais afastado. Mas é lógico que a gente não pode limitar esses contatos.

CUBA FOI SÓ SONDAGEM

 

 

Sócrates teria sido convidado para treinar a seleção de Cuba. Segundo o “Doutor”, não foi bem assim.

“Todo mundo sabe que eu sou apaixonado pela revolução, pela história cubana. De vez em quando tenho de ir lá para tomar um banho de humanidade. E talvez por isso pessoas que estejam em contato com um lado e o outro criaram alguma possibilidade de vínculo. Falei: ‘O que eu puder ajudar… Não sou o Che, mas o pouquinho que eu puder ajudar…? Mas não houve nada concreto”, disse Sócrates.

A admiração pelo país caribenho é tanta que o filho mais novo do ex-jogador ganhou o nome de “Fidel”.

UOL Esporte: Semana passada, o ex-jogador Zé Elias foi preso. O problema com o pagamento de pensão é comum à classe dos jogadores?
Sócrates:
Aquilo lá não é pensão, é um absurdo, R$ 25 mil é um absurdo para todo mundo. Não podemos separar [os atletas] da sociedade. Nesse caso específico. Tinha uma pensão que era daquilo que ele ganhava quando jogava. Cadê a Justiça? Se eu não tenho como pagar, não vou pagar. Eu paguei pensão a vida toda. Se não tenho como, vou preso mesmo. Qual é o problema? E vou pôr a Justiça na parede. Como vou pagar o que eu não ganho? Não importa o que o outro lado espera. Espera que eu seja o quê? Cadê a velocidade? É tão fácil prender. Por que não é tão rápido também a reavaliação do processo? Esse caso é muito claro de uma injustiça brutal contra o ser humano. Sem dúvida ele faria o diabo para educar seus filhos. Agora um valor desse tanto é impossível de pagar.

UOL Esporte: Há alguns anos você voltou a jogar por um clube inglês, já com 50 anos. Como aconteceu aquilo?
Sócrates:
Aquilo foi interessante. O Simon [Clifford, diretor do Garforth, time para o qual Sócrates se transferiu em 2004] é um estudioso de futebol, apaixonado. Ele entrou em contato comigo, apresentou o trabalho dele e me convidou para conhecer o projeto. Só que ele fez um auê em cima disso. Ele me transferiu para lá, eu não sabia. Sou o jogador mais velho a se transferir para o exterior. Porque o jogo lá era oficial. Aí ele falou: ‘Pô Magrão [apelido de Sócrates], pode jogar uns cinco minutinhos?’. Falei: ‘Claro, não tem problema’. Mas tinha problema, porque estava um frio lascado. Mas foi isso, foi uma grande armação. Até bati palma para ele, porque tinha link ao vivo até para o Vietnã.

UOL Esporte: Neste ano, alguns ex-jogadores foram fazer um amistoso na Tchechênia [região separatista da Rússia]. Seu irmão Raí, que estava entre eles, depois se disse arrependido por ter sido usado politicamente. Como você viu a situação?
Sócrates:
Isso acontece sempre. O Raí não devia se sentir mal não. Isso acontece sempre. Você vai para uma pelada em Moscou, acha que não tem o [Vladimir, ex-presidente russo] Putin por trás? Tem sistemas mais fechados e mais abertos. Quanto mais fechado, mais fácil você reconhece o dono da padaria. Não acho que seja nenhum absurdo. Não devíamos é fazer isso aqui. A usurpação política lá fora é problema deles. Não vamos modificar a sociedade de lá. Agora aqui nós temos a obrigação.

UOL Esporte: Fale um pouco sobre o Raí e a relação que você tem com o seu irmão.
Sócrates:
O pivete é figuraça. Ele é bastante diferente de mim, todo fechadão. É um agitador. Eu brinco que ele faz micro-política e eu faço macro. Ele quer mudar a vida de mil famílias, eu de 300 milhões. Mas no fundo isso se soma. Ele tem alguma dificuldade de se abrir comigo, e eu com ele. Nós convivemos muito pouco, temos uma diferença de idade muito grande. Isso deve ser ter sido traumático para caramba para ele. Ele foi muito cobrado. Isso é uma constatação da força dele. Porque não é fácil não. De pai para filho já é dificílimo, imagina de irmão.

 

UOL Esporte: Sócrates, porque você não deu certo na Itália, quando foi jogar pela Fiorentina?
Sócrates:
Eu acho que eu joguei muita bola lá, mas fora do inverno. No inverno eu não conseguia andar. Meu time estava rompido. Metade não passava para a outra metade. E eu, para-quedista, ficava no meio e ninguém passava a bola para mim. Chega no inverno é impossível. Eu tinha musculatura de cavalo de grama leve, e fui para a areia pesada. Cinco minutos de jogo estava sem condições de correr. Os três meses de inverno foram de treinamento. Treinei sozinho várias vezes. Logo eu que todo mundo fala que não gostava de treinar. A grande questão ali foi de comunicação. Toda informação era passada pelo intermediário. Uma vez estamparam em todos os jornais que eu estava chamando os fiorentinos de palhaços. Pô, tenho de provar que não sem me comunicar? Como? Nesse dia tinha um jogo de pré-temporada e eu fui assistir ao jogo. Paguei o ingresso e fui ficar na curva [nome que se dá a uma parte popular da arquibancada dos estádios].

UOL Esporte: E deu certo?
Sócrates:
Deu, metade queria me matar e metade me protegia naquele dia. Pô, como vou chamar alguém de palhaço? Fui assistir ao jogo junto com eles. Porque não tinha como me comunicar. No segundo ano seria muito mais simples. O problema do time continuaria, mas você já domina a língua, questiona as coisas… Jogar bola eu joguei, enquanto teve sol eu joguei bem.

SÓCRATES EXPLICA COMO QUER VOLTAR A SER “DOUTOR” COM CONSULTA NA PRAÇA

UOL Esporte: Todo mundo te chama de “Doutor”, mas você não é mais exatamente um doutor, não é?
Sócrates:
Eu sou um médico de telefone, um plantonista eterno. Um especialista em diagnósticos. Só não estou com consultório. Fui fazer clínica e não gostei. Preciso de liberdade, estou sempre criando alguma coisa, ainda mais que sou aquariano, meio louco. Mas estou sempre pensando em medicina, a fisiologia está dentro de mim. Um dia, talvez, se eu tiver saúde, ainda vou ser médico na praça. Se estiver aposentado das minhas guerras política vou fazer isso e atender quem quiser. 

UOL Esporte: E esse visual de faixa no cabelo? Tem uma explicação?
Sócrates:
Eu resolvi deixar o cabelo crescer e aí juntaram vários projetos. Essa faixa tem a ver com a de 86. Aí pensei que tenho de começar a brigar de novo por alguns valores. Hoje você vê gente tentando matar casais homossexuais… Daqui a pouco as inscrições vão estar aqui, coisas boas e coisas que devemos combater. E é meio Woodstock, dos meus ídolos.

UOL Esporte: Quem são seus ídolos no futebol?
Sócrates:
Na verdade eu não tive ídolos. Ídolo é uma coisa pesada. Eu era santista, adorava o time todo do Santos. Mas ídolo mesmo eu não tive. De parar para assistir, nunca tive. Tenho hoje pelo Tiger [Woods], porque nunca joguei golfe. Ele é negro, está em um esporte de brancos, lembra Martin Luther King… Tem uma série de histórias aí. Mas Che [Guevara, revolucionário argentino] e [John, vocalista dos Beatles] Lennon. Meus ídolos foram sempre eles. Lennon pelos Beatles, mas mais ele por causa das suas posturas.

Gustavo Franceschini*
Em São Paulo

*Equipe técnica: Alexandre Santos e Samuel Cabral

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