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O FUTEBOL DOS ‘GÊNIOS’

 

O futebol dos ‘gênios’

Paulo Calçade

Por mais que a volta de Robinho ao Santos pudesse inverter a expectativa do clássico, havia nos números das equipes um pouco de virtude e um sinal de perigo. Como seria o confronto das melhores defesas do Campeonato Brasileiro?

O torcedor acostumado à realidade do nosso futebol sabe onde mora o perigo. A partida caminhava dentro daquela temível normalidade, com uma finalização certa para cada lado ao final do primeiro tempo, pronta para justificar as estatísticas, quando o volante Alison recebeu cartão vermelho e deixou o Santos com dez jogadores.

A expulsão obrigou o Corinthians a se comportar com mais ousadia, geralmente fator de irritação para Mano Menezes, principalmente quando lhe é cobrado um jogo mais propositivo. O treinador se defende com a própria campanha, sustentado pelos pontos conquistados pelo time fora de casa (14), agora superiores aos de seu próprio estádio (13).

Reduzido aos contra-ataques, a expulsão mudou a postura do Santos. Quando o empate já parecia um ótimo negócio, Gil deu a vitória ao Corinthians, vinda de um escanteio. O placar reforça as crenças corintianas, marca a primeira derrota de Robinho para o rival, mas não entra na lista dos grandes jogos brasileiros.

Em nosso empobrecido e mal tratado futebol, o regresso de um bom jogador é mais do que uma atração, ainda pode ser um reforço de verdade. Mas é pouco para corrigir anos e anos de retrocesso.

Um mês depois dos 7 a 1, se alguma coisa mudou foi para pior. A contundência da pancada desorientou os poucos neurônios disponíveis no mercado, capazes de gerar reação com o farol apontado para o futuro.

A goleada alemã não pode ser esquecida. Precisa ser lembrada todos os dias, pois o que vem por aí como solução pode ser ainda pior. O que se viu nas últimas semanas foi uma revoltante busca pelo o que o passado produziu de pior.

Propostas inacreditáveis foram recuperadas para salvar o futebol do País. Na prática servem somente para definir a escala de insanidade e de esperteza dos cartolas. O primeiro golpe foi o calendário da CBF para o ano que vem. Na fórmula dos “gênios”, os clubes pequenos continuam com a agenda vazia, uma espécie de treinamento intensivo para a falência e o desemprego.

Isso é pouco diante da ideia de recriação do passe. Explico, no tempo dos homens das cavernas, o jogador era propriedade do clube. Agora, sob o argumento de que quem manda no futebol são os empresários, os “gênios” bolaram uma solução inconstitucional para a barbeiragem administrativa das agremiações.

Como sempre, a cartilha do oportunismo sugere o mata-mata como remédio para o desaparecimento da qualidade do jogo. As audiências estão caindo porque o futebol é ruim, óbvio. Portanto, é preciso melhorá-lo e não mudar o sistema de disputa, que pode até ser emocionante, mas não ajuda a subir o nível das partidas. Reimplantá-lo no principal campeonato do País não é salvação, é roleta-russa.

Se essa noção de organização não é clara, então estamos realmente no fundo do poço, na vanguarda da pré-história do esporte mundial. E aí se conclui que 7 a 1 foi pouco.

Não serão apenas as voltas de jogadores como Kaká e Robinho que vão conseguir ressuscitar o jogo por aqui. Quem realmente tem algum poder precisa de um pouco de vergonha na cara. O resto é piada.

Para arrumar a casa de verdade, Santos, Corinthians e todos os outros um dia precisarão se unir, para entender o campeonato como um negócio do qual fazem parte e possuem objetivos comuns.

Talvez cheguem lá. Por enquanto veremos clássicos fraquinhos supervalorizados por detalhes. Mas jogo de futebol de verdade ainda está longe. A má notícia é que essa geração de cartolas não tem nível para resolver nada, nem para pagar as contas de seus times. A boa é que dar um jeito nisso é moleza, basta bom senso.

Paulo Calçade, oesp 11/8/14

 

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