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CORRUPÇÃO, ESSA IRRESISTÍVEL

domingo, 1 de dezembro de 2013

 

Corrupção, essa irresistível

O Estado de S.Paulo

“… temos enfrentado dificuldades em mudar o sistema político brasileiro, verdadeira camisa de força que impede transformações mais profundas e impõe um ‘presidencialismo de coalizão’ que corrói o conteúdo programático da ação governamental.” Não, não se trata de excerto de um documento subscrito por forças que se opõem ao governo do PT. O eventual equívoco decorrerá da omissão do início da frase, que elimina qualquer dúvida: “Desde 2003, sobretudo, temos enfrentado dificuldades…” Sim, é um documento do Partido dos Trabalhadores, que diz mais: “… o partido é ainda prisioneiro de um sistema eleitoral que favorece a corrupção e de uma atividade parlamentar que dificulta a mudança”. Que triste!

Essa pungente confissão de rendição às forças do mal, as mesmas que durante mais de 20 anos prometeram dizimar com destemor, é de tal modo falsa que sugere uma pergunta óbvia para Lula, Dilma e companheirada: afinal, por que esperaram 10 anos para condenar a corrupção que os transformou em “prisioneiros” (e não é que é verdade?), para profligar o “presidencialismo de coalizão” do qual sempre se gabaram e para repudiar “uma atividade parlamentar que dificulta a mudança”? A resposta também é óbvia: porque há 10 anos os petistas de Lula estão comprometidos até o pescoço, numa ação mútua de cooptação, com os mais notórios representantes do que há de pior no Congresso Nacional; com as lideranças retrógradas que se alimentam da corrupção, exigem “coalizão” para se locupletarem no exercício do poder e comandam uma “atividade parlamentar” que não quer saber de mudança porque acha tudo muito bom como está.

Essas “reflexões” serão oferecidas a debate no 5.º Congresso do PT, que se reunirá em meados de dezembro em Brasília. Conclaves políticos dessa natureza se destinam, por definição, à discussão de questões programáticas. Parece claro, no entanto, como se pode inferir do documento preparado por Marco Aurélio Garcia, que mais do que tratar de programas os petistas estão preocupados no momento em neutralizar os reflexos negativos do escândalo do mensalão e da prisão de seus figurões. Vão partir, portanto, para o ataque – sua melhor arma de defesa -, mais uma vez potencializando a síndrome de perseguição com a qual estimulam, até agora com grande êxito, o processo de sua identificação com as chamadas massas populares. É assim que o populismo funciona.

Há, porém, uma outra questão curiosa que o documento petista suscita, principalmente quando associada à recente e inesperada atitude de Lula de atacar com violência o Poder Judiciário e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, por conta da condenação e da prisão de seus companheiros José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. “Parece que a lei só vale para o PT”, reclamou, em evento político em Santo André.

Lula vinha adotando nos últimos meses uma postura discreta e cautelosa a respeito do julgamento do mensalão. Segundo sua própria avaliação repassada aos comandos do PT e à presidente Dilma Rousseff, o melhor no momento seria minimizar o assunto, para que ele caia no esquecimento o mais rápido possível e não contamine o debate eleitoral do ano que vem. Mas isso era o que se dizia nos círculos petistas antes da prisão de sua elite. Depois disso, até por causa dos problemas de saúde de Genoino, a reação às prisões por parte de lideranças mais próximas dos encarcerados e da militância foi-se tornando a cada dia mais emocional e ruidosa.

José Dirceu, que jamais se conformou com a maneira “conciliatória” como entende que Lula sempre tratou o assunto, depois de preso teria radicalizado essa postura e cobrado duramente do ex-presidente, por meio de amigos comuns, uma manifestação clara de solidariedade aos prisioneiros. Aparentemente, agora teve sucesso, pois, além do discurso de Lula no ABC paulista, o PT, contrariando decisão anterior de ignorar oficialmente o assunto, teria decidido prestar solidariedade aos condenados na abertura do congresso do partido, dia 12 de dezembro.

Faz sentido. Afinal, se o PT é vítima de instituições corruptas, vítimas também são seus bravos dirigentes que enfrentaram “dificuldades” para resistir à corrupção.

OESP, 1 de dezembro de 2013

 

 

MELHOR QUE A BRITANNICA

sábado, 30 de novembro de 2013

Melhor que a Britannica

Tão ou até mais triste que um país que precisa de heróis é uma criança que nunca idolatrou um herói do futebol.

Em geral, os heróis da criançada ou se destacam no ataque, fazendo muitos gols, ou debaixo das traves, defendendo-as com destreza, arrojo e alguma ostentação. Meu primeiro (e único) ídolo não era, estranhamente, nem atacante nem goleiro. Vi jogar Pelé, Garrincha, Zizinho, Didi, mas acontece que Nilton Santos foi meu primeiro coup de foudre futebolístico e jamais deixei de lhe ser tão fiel quanto ele foi ao Botafogo, seu único clube ao longo da carreira, que durou 16 anos (1948-1964), e da vida, que durou 88 e chegou ao fim na última quarta-feira.

Se eu fosse um pouquinho mais velho, dificilmente teria escapado aos sortilégios do temperamental e galante artilheiro Heleno de Freitas, mas quando despertei para o futebol, Silvio Pirilo já ocupara seu lugar no ataque alvinegro. Restou-me Nilton Santos. Ou melhor, o garbo, a elegância e a mestria de Nilton Santos, com sua marcação precisa e leal, seu raciocínio rápido, sua perfeita noção de passe e cobertura, seus dribles desconcertantes dentro e fora da área, seus vistosos e audaciosos avanços ao ataque. Os dois, aliás, só atuaram juntos quatro vezes, em maio de 1948.

Nilton, naquela época, era apenas Santos. Havia outro Nilton no time e o jeito foi distingui-lo pelo sobrenome, só reincorporado ao prenome quando o convocaram para a seleção brasileira, pois nela havia outro Santos, Djalma.

Santos ainda estava sem o Nilton ao ser biografado pela revista Vida do Crack, em setembro de 1953. Custava cinco cruzeiros o exemplar, eu queria dois (um para guardar, outro para recortar e fazer um álbum), minha mãe disse não (alegando já ter estourado minha mesada com gibis e ingressos de cinema), minha avó me salvou. Ao ouvir que eu queria comprar “a vida do Santos”, vovó persignou-se, e, acompanhadas de um conselho (“Isto mesmo, meu filho, é melhor você ler sobre a vida dos santos do que histórias em quadrinhos”), depositou na minha mão duas notas de cinco, o dobro do que eu mendigara.

O álbum há muito sumiu, mas o segundo exemplar da Vida do Crack permanece comigo até hoje, em perfeito estado de conservação, guardado a não sei quantas chaves como se fosse a Bíblia de Mongúncia. Depois então que o biografado craque o autografou, na primeira Feijoada do Fogão, dez anos atrás, seu valor tornou-se rigorosamente inestimável. “Se eu fosse você, não o trocaria nem por um desenho original do Michelangelo”, aconselhou-me a sério o arquibotafoguense João Moreira Salles. E ele nem viu Nilton Santos jogar ao vivo.

Atacante nas peladas adolescentes, só virou defensor por teimosia do então presidente do Botafogo, Carlito Rocha, que ao vê-lo no primeiro teste em General Severiano, perguntou: “Rapaz, você joga com a cabeça?”. Crente que jogar com a cabeça significava jogar de forma inteligente, Nilton respondeu afirmativamente. “Salte”, ordenou Carlito. Nilton saltou. “Esqueça o ataque, rapaz”, disse o cartola. E profetizou: “Na defesa, você será campeão carioca, brasileiro e sul-americano”. Em menos de dois anos a profecia se cumpriu.

Nilton foi campeão carioca (quatro vezes), brasileiro, sul-americano (o primeiro título internacional de nossa seleção, no Pan-Americano do Chile, em 1952), venceu um Rio-São Paulo e duas Copas do Mundo. No total, 26 títulos. Jamais perdeu uma final de campeonato. Vale lembrar que na infausta Copa de 1950, a primeira das quatro para as quais foi convocado, era reserva de Augusto, zagueiro do Vasco. Foi o único jogador a participar da fantástica evolução que se deu no futebol brasileiro entre 1950 e a Copa de 1962.

Conhecia tudo de bola. Dava-se ao luxo de driblar de costas o adversário porque sabia, pela sombra projetada no gramado, onde estava seu pé de apoio, saindo sempre pelo lado certo. Não ganhou gratuitamente o apelido de “Enciclopédia do Futebol”, que o locutor esportivo Valdir Amaral tirou do colete durante a transmissão de uma partida memorável do Botafogo – e sobretudo do seu lateral esquerdo. Foi nessa posição que se consagrou como o primeiro ala moderno, de resto revelado ao mundo na tarde de 8 de junho de 1958, no estádio de Udevala, na Suécia, quando desrespeitou as ordens do treinador Vicente Feola, abandonou nosso setor defensivo, avançou célere com a bola pela esquerda, tabelou com o centroavante Mazzola, e marcou o segundo gol do Brasil.

Bem antes de ser eleito pela Fifa o melhor da posição em todos os tempos, já era um deus dos estádios de todo o continente. Conta-se que, no intervalo de um jogo do Botafogo contra o River Plate, na Cidade do México, o argentino Nestor Rossi aconselhou seu companheiro de equipe Federico Vairo, esbodegado de tanto levar dribles de Garrincha, a passar a mão nas pernas de Nilton: “Vá lá, passe a mão nas pernas dele, que seu jogo logo melhora. Anda, que o futebol de todos os beques do mundo está ali, naquelas pernas”. Se deu certo a mandinga, não sei.

Com a idade, o fôlego mais curto, Nilton virou zagueiro, sem perder a classe nem a competência. Depois de aposentado, passou a dar show nas peladas do clube Trinta por Trinta, na zona sul do Rio, ao lado de jornalistas, artistas e outros aposentados. Ensinou ao também peladeiro Armando Nogueira a gastar por igual as laterais de sua Conga, no cimento do vestiário, para que os jogadores do time visitante não descobrissem de cara se ele era destro ou canhoto. Um sábio.

Armando o endeusava. “Não era um jogador de futebol, era uma exclamação”, escreveu numa crônica. Consumido de saudades botafoguenses, encaixou nela este breve poema sobre o craque: “Tu em campo parecias tantos. E, no entanto – que encanto – eras um só Nilton Santos.”

Creio ter sido Armando o autor do texto gravado, à guisa de dedicatória, naquela bola com que o jogador foi presenteado pelos amigos em 1983: “Mestre Nilton, hoje estou realizando o sonho de felicidade de todas as bolas do mundo: ser só sua para sempre”.

Sérgio Augusto, O Estado de São Paulo, 30 de novembro de 2013

 

 

PAPUDA CAROCHINHA

sábado, 30 de novembro de 2013

PAPUDA CAROCHINHA

Há uma revolução em marcha na Papuda! O tratamento igual a todos os presos determinado pela Justiça do DF pode ser o primeiro passo para o fim dos privilégios também fora da penitenciária. Imagine só o Congresso sem regalias! José Dirceu & Cia podem, ainda que involuntariamente, servir de pretexto para a moralização do País.

Se não vai mais ser possível molhar a mão do carcereiro para descolar um rango decente, convenhamos, não é possível que fora da cadeia compre-se até voto por baixo do pano. A prisão não pode ser o único lugar do Brasil onde a corrupção não entra!

Antes que a sociedade se torne mais igualitária intramuros, vale estender para todo território nacional o despacho judicial que acaba com a pouca vergonha na Papuda, conservada a cláusula da Justiça do DF para o caso do não cumprimento da decisão: “Que se estenda as regalias para todos os detentos”.

Aqui fora, vigoraria a máxima do Barão de Itararé: “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos!”

Tutty Vasques O Estado de São Paulo 29 de novembro de 2013

UMA HISTÓRIA DE AMOR: O JARDINEIRO E A FRÄULEIN

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

 

 

Rubem Alves

Menino, ele de longe olhava os pescadores nos seus barcos levados pelo vento. Pensava que o mar não tem fim. Pensava que os pescadores eram felizes porque não precisavam plantar peixes para colher depois. O mar era generoso: ele mesmo plantava os peixes que os pescadores só faziam colher com as suas redes. Tinha inveja dos pescadores. Ele era filho de agricultores. Tinha de plantar para colher. Diferente do mar, a terra tinha fim. Todos os pedaços de terra, os menores, os mais insignificantes, todos já estavam sendo cultivados. Os pescadores, se quisessem mais, bastava-lhes navegar mar a dentro. Mas os agricultores não podiam querer mais. A terra chegara ao fim. Quem quisesse mais terra para cultivar teria que sair da terra conhecida e ir em busca de outras terras, além do mar sem fim.

Ele já ouvira os mais velhos falando sobre isso – um país do outro lado do mar – tão longe que lá era noite quando no seu país era dia – país de gente de rostos diferentes, de comida diferente, de língua diferente, de religião diferente, de costumes diferentes. Tudo era diferente. Menos uma coisa: a terra era a mesma e os seus segredos, eles os conheciam.

E foi assim que chegou o dia em que ele, adolescente, seus irmãos e seus pais, entraram num navio que os levaria ao tal país – como era mesmo o seu nome? Buragiro… Era assim que eles, japoneses, conseguiam falar o nome Brasil…

No Brasil, o jovem japonês conseguiu trabalho na casa de uma família de alemães. Família rica, casa de muitos criados e criadas. Ele não falava português nem alemão. Mas não importava. Seu trabalho era cuidar da horta e do jardim. E a língua da terra e das plantas ele conhecia muito bem. A prova disso estava nos arbustos artisticamente podados segundo a inspiração milenar das bonsais, nos canteiros explodindo em flores, nas hortaliças que cresciam viçosas. E foi assim que, na sua fiel e silenciosa competência de jardineiro e hortelão, ele passou a ser amado pelos seus patrões.

Mas ninguém nem de longe suspeitava os sonhos que havia na alma do jardineiro. Quem não sabe pensa que jardineiro só sonha com terra, água e plantas. Mas os jardineiros têm também sonhos de amor. Jardins, sem amor, são belos e tristes. Mas quando o amor floresce o jardim fica perfumado e alegre. Pois esse era o segredo que morava na alma do jardineiro japonês: ele amava uma mulher, uma alemãzinha, serviçal também, todos a tratavam por Fräulein. Cabelos cor de cobre, como ele nunca havia visto no seu país, pele branca salpicada de pintas, olhos azuis, e um discreto sorriso na sua boca carnuda que se transformava em risada, quando longe dos patrões. Era ela que lhe trazia o prato de comida, sempre com aquele sorriso…

E ele sonhava. Sonhava que suas mãos acariciavam seus cabelos e seu rosto. Sonhava que seus braços a abraçavam e os braços dela o abraçavam. Sonhava que sua boca e sua língua bebiam amor naquela boca carnuda… E a sua imaginação fazia aquilo que faz a imaginação dos apaixonados: se imaginava num ritual de amor, delicado como a cerimônia do chá, tirando a roupa da Fräulein e beijando a sua pele… A imaginação de um jardineiro japonês apaixonado é igual à imaginação de todos os apaixonados…

Mas era apenas um sonho. Olhava para seu corpo atarracado, para sua roupa rude de jardineiro, para suas mãos sujas de terra, para seus dedos ásperos como pedras. A Fräulein pertencia a um outro mundo distante do seu mundo de jardineiro.

Vez por outra ele lhe oferecia uma flor quando ela lhe trazia a comida. Ela sorria aquele sorriso lindo de criança, agradecia, e voltava saltitando para a casa, com a flor na mão. Mas havia aquelas ocasiões em que ela tomava a flor e a levava ao seu nariz sardento para sentir o perfume. As pétalas da flor então roçavam os seus lábios. E o seu corpo de jardineiro estremecia, imaginando que a sua boca estava tocando os lábios dela.

Mas o seu amor nunca saiu da fantasia. Ninguém nunca soube.

Os anos passaram. Ele ficou velho. A Fräulein também envelheceu. Mas o amor não diminuiu. Para ele, era como se os anos não tivessem passado. Ela continuava a ser a meninota sardenta. O amor não satisfeito ignora a passagem do tempo. É eterno.

Chegou, finalmente, o momento inevitável: velho, ele não mais conseguia dar conta do seu trabalho. Seus patrões, que o amavam profundamente, pensaram que o melhor, talvez, fosse que ele passasse seus últimos anos num lar para japoneses idosos, uma grande área de 10 alqueires, bem cultivada, com pássaros, flores e um lago com carpas e tilápias. Ele concordou. Visitou o lar mas, por razões desconhecidas, não quis viver lá. Achou preferível viver com parentes, numa cidade do interior. Mas o fato é que os velhos são sempre uma perturbação na vida dos mais novos. São, na melhor das hipóteses, tolerados. E a sua velhice se encheu de tristeza.

Um dia, movido pela saudade, resolveu visitar a casa onde passara toda a sua vida e onde vivia a Fräulein. Mas aí lhe contaram que ela fora internada num lar para idosos alemães. Estava muito doente. Foi então visitá-la. Encontrou-a numa cama, muito fraca, incapaz de andar.

E então ele fez uma coisa louca que somente um apaixonado pode fazer: resolveu ficar com ela. Passou a dormir ao seu lado, no chão. Passou a cuidar dela como se cuida de uma criança. (Fico comovido pensando na sensibilidade dos diretores daquela casa que permitiram esse arranjo que não estava previsto nos regulamentos.)

A Fräulein estava muito fraca. Não conseguia mastigar os alimentos. Não conseguia comer. Aconteceu, então, um ato inacreditável de amor que os que não estão apaixonados jamais compreenderão: o jardineiro passou a mastigar a comida que ele então colocava na boca da agora ‘sua’ Fräulein. Os dirigentes da casa, acho que movidos pelo amor, fizeram de conta que nada viam.

Nunca ninguém viu, nunca ninguém me contou. Imaginei. Imaginei que quando estavam sozinhos, sem ninguém que os visse o jardineiro encostava seus lábios nos lábios da Fräulein, e assim lhe dava de comer… Assim o fazem os namorados apaixonados, lábios colados, brincando de passar a uva de uma boca para a outra…

E assim, ao final da vida, o jardineiro Hiroshi Okumura beijou sua Fräulein como nunca imaginara beijar… O amor se realiza de formas inesperadas.

Esta é uma história verdadeira. Aconteceu. Foi-me contada pela Tomiko, amiga que trabalha com idosos (aquela que me aconselhou a comprar um blazer vermelho). Ela conheceu pessoalmente o jardineiro.

No meu sítio eu planto árvores para meus amigos que morrem. Pois vou plantar uma cerejeira e uma camélia vermelha, uma ao lado da outra: o Jardineiro japonês e a sua Fräulein… (Correio Popular, Caderno C, 07/01/2001)
 

O PLEBISCITO

terça-feira, 9 de julho de 2013

 

O plebiscito

Em conversa com o filho, colunista imagina  perguntas que podem ser feitas num plebiscito no Brasil

“Pai, o que é plebiscito?”. Assim perguntava o menino, no conto de Artur  Azevedo em 1890. O mesmo aconteceu comigo.

Estava na sala, e de repente meu filho levanta a cabeça e pergunta:

— Pai, o que é plebiscito?

Eu fechei os olhos imediatamente para fingir que dormia. O menino  insiste:

— Papai? O que é?

Não tenho remédio senão abrir os olhos.

— Ora essa, rapaz, tens 13 anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

— Se soubesse, não perguntava.

— Plebiscito, meu filho, é quando o governo pergunta ao povo o que ele acha  de determinado assunto importante para o país. Voltou à tona depois que houve as  manifestações de rua, com mais de um milhão de pessoas protestando contra o caos  brasileiro.

— Que pergunta é importante para o Brasil?

— São muitas perguntas meu filho… quer exemplos? Muito bem… vamos a  isso:

— Você é contra ou a favor de 15 bilhões para estádios de futebol, dinheiro  que dava para fazer 50 hospitais ou 75 quilômetros de metrô em São Paulo?

Você é a favor da “reforma política”? Você sabe o que é voto distrital comum  ou misto? É contra ou a favor? Aliás, você sabe o que é isso, filho?

— Se você explicar…

— Também não sei, filho… mas, vamos lá…

Você é contra ou a favor de haver 28 mil cargos de confiança no governo, se a  Inglaterra tem apenas 800 e os USA, 2 mil? O Brasil tem mais de 5.700  municípios, com prefeitos, vice-prefeitos, 513 deputados federais, 39  ministérios. Não dava para cortar tudo pela metade? E o PAC? Que fez o PAC até  hoje? Com a corrupção deslavada, o PAC acabou fazendo pontes para o nada,  viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da  pele, tudo proclamado como plano de aceleração do crescimento.

Os melhores economistas do mundo dizem que temos de abandonar a política  econômica de estimular demanda e atentar para o crescimento da oferta, pela  redução de gastos do Estado, que se apropria de 36% da renda nacional mas  investe menos de 3% e consome grande parte dos recursos para sua própria  operação. Você entendeu o que falei? Um dia, entenderá.

Você é contra ou a favor de investigar por que a Petrobras comprou uma  refinaria no Texas por 1 bilhão de dólares, se ela vale apenas 100 milhões? Você  é contra ou a favor da ferrovia Norte-Sul que está sendo construída há 27 anos,  com mil roubalheiras e ainda quer mais 100 milhões para cobrir o que a Valec  desviou quando o Juquinha, afilhado do eterno Sarney, era o chefão?

— Quem é Sarney?

— É o comandante do atraso.

— Ah… legal…

— Você é contra ou a favor da CPI que fez o Cachoeira sumir do mapa para não  criar problemas para o Executivo e suas empreiteiras?

Você lembra das operações da Polícia Federal, com lindos nomes? Cavalo de  Troia, Caixa de Pandora (do Arruda), Anaconda, das mil ambulâncias dos  sanguessugas? E tantas outras. Quantos estão presos hoje? Você é contra ou a  favor de reforma do Código de Processo Penal? Aliás, por que o PT quer tanto o  plebiscito? Ele lucra com isso? Sim ou não?

O Lula sumiu de cena mas já declarou que as manifestações são “coisa da  direita”. E o PT — é peronista de direita ou de esquerda?

Com a volta da inflação, você é contra ou a favor da correção monetária para  o Bolsa Família?

Você não acha que é fundamental a privatização (ohhh, desculpe, “concessões”) de ferrovias, aeroportos e rodovias?

Por que uma das maiores secas de nossa História não é analisada pelo governo?  Para não criticar os donos da indústria da seca, por motivos eleitorais? Aliás,  o que aconteceu com o Rio São Francisco que disseram que iam canalizar? Parou?  Sim ou não?

Sem dúvida, Sérgio Cabral foi quem mais se queimou nisso tudo. Mas, pergunto,  que será do Estado do Rio de Janeiro com o Lindbergh Farias, ex-prefeito de Nova  Iguaçu, com o sigilo quebrado pelo STF, governando o Estado até 2018? Será que o  Pão de Açúcar fica em pé?

Você acha legal ou não a importação de médicos cubanos para o interior do  país?

Você é contra ou a favor do “trem-bala” que custará (na avaliação inicial)  cerca de 30 bilhões de reais, que davam para renovar toda a malha ferroviária  comum? Aliás, nessa velocidade, qual a altura que ele vai voar, quando os  traficantes do Rio puserem pedras nos trilhos?

Você acha que os “mensaleiros” ficaram contentes com o fim da PEC 37 que o  Congresso, apavorado, rejeitou?

Você acha normal que o Brasil cobre 36 reais de impostos sobre cada 100 reais  produzidos?

Você não acha o Palocci muito melhor que o Mantega? Por que não chamam o  Palocci? Quem é? É o melhor cara do PT, que impediu a destruição do Plano Real  durante os quatro anos do primeiro mandato do Lula.

Você entende, meu filho, o governo do Brasil tenta com sua ideia de mudança  constitucional transformar problemas administrativos em problemas  institucionais. Você não acha que querem disfarçar sua incompetência  administrativa? Afinal, quem governou o país nos últimos dez anos? Agora, parece  que descobriram que o país precisa de reformas, que o PT não fez nem deixou  fazer por dez anos. Agora, gritam todos: reforma! Por isso, pergunto: será que  os intelectuais não veem que a democracia conquistada há 20 anos está sendo  roída pelos ratos da velha política? Você acha que a Dilma está com ódio do  Lula, por ter finalmente descoberto o tamanho da herança maldita que deixou para  ela? Mas Lula não liga. “Ela que se vire…” — ele pensa em seu egoísmo,  secretamente até querendo que ela se dane, para ele voltar em 14. Você acha, meu  filho, que o Lula vai ser candidato de novo? E será eleito como “pai do povo”, para salvar o país que ele destruiu?

E que você acha de todas essas perguntas, meu filho? Qual a sua opinião?

— Pai, o povo já respondeu a todas essas perguntas. Então, para que perguntar  de novo?

— É técnica de marketing, meu filho. Ideia do Lula, para dar a impressão de  que o governo não sabia de nada.

Como ele nunca soube.

Arnaldo Jabor, OESP 9/7/13

 

 

 

NOSSA MISÉRIA NÃO ESTÁ NA MISÉRIA

terça-feira, 21 de Maio de 2013

 

Nossa miséria não está na miséria

14 de maio de 2013 | 2h 07

Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo

Assisti horrorizado à facilidade com que dois sujeitos cobertos de suspeitas em julgamento conseguiram destruir em minutos a medida provisória para modernizar nossos portos. Não tenho espaço para exibir a longa lista de irregularidades de que são acusados os deputados Garotinho e Eduardo Cunha. Eram amigos coloridos e deixaram sua marca na paisagem política do Rio: de Furnas, Cehab, Cedae, Telerj, hidrelétricas, ‘propinoduto’, ONGs sem endereço até o célebre escândalo de milhões de fraldas geriátricas, lembram? Agora são inimigos e, no vexame na Câmara outro dia (conscientemente ou não), conseguiram invalidar uma das mais importantes medidas que o governo tenta para nosso crescimento. Na briga, os dois se xingaram muito e os dois tinham razão. Vejam as fichas dos dois no Google. Estudar suas vidas políticas explica bem o Brasil. Há séculos, homens como esses impedem o desenvolvimento do País e transformam o Poder Legislativo no maior inimigo do povo. Aliás, nossa miséria não se explica pelos arcaicos ‘culpados’ tradicionais: imperialismo e latifúndio, como quer a velha ideologia simplista. Para entendermos o horror que nos envolve, temos de analisar as classes dominantes, a estrutura patrimonialista do País, a formação torta do Estado, a tradição histórica de nosso egoísmo. Livros e filmes devem ser feitos mostrando como nós mesmos construímos nosso atraso. Parafraseando Nelson Rodrigues: “Nossa miséria não se improvisa; é uma obra de séculos”.

Transformar a miséria em bandeira política, sem nos incluirmos nela é uma atitude miserável. A miséria está nas emendas do orçamento, está na sordidez do sistema eleitoral, na falsa compaixão dos populistas, nos ideólogos chavistas preparando o novo gigantismo do Estado disfarçado de ‘desenvolvimentismo nacionalista’, nas caras cínicas e ‘lombrosianas’ dos ladrões congressistas, está na lei arcaica e sem reformas, está na atitude gelada dos juristas impassíveis, está nos garotinhos na rua e nos garotinhos da política.

Temos de entender como a miséria está ‘dentro’ de todos nós. Para nós, os bacanas, a miséria é apenas um incômodo ‘existencial’, uma sujeira na paisagem.

Há alguns anos, tolerávamos tristemente a miséria, desde que ela ficasse longe, quieta, sem interferir na santa paz de nosso escândalo. A miséria tinha quase uma… ‘função social’.

No entanto, ela é uma construção minuciosa por um sistema complexo. A miséria não é absurda, é uma produção.

A trágica doença brasileira continua intacta, a não ser na propaganda oficial e no papo. As reformas essenciais que qualquer governo moderno conhece nunca foram realizadas e não serão – está ficando claro. O conservadorismo ideológico do PT e o pior fisiologismo do País não permitirão, de mãos dadas na aliança reacionária que o Lula inventou.

Uma vez, escrevi sobre um menino pobre que fazia malabarismo na rua, diante de meu carro, e muitos se emocionaram, em cartas e e-mails. Tive uma sensação de culpa por fazer sucesso com a miséria dos outros. De certa forma, eu lucrei. O menininho malabarista (onde estará ele agora?) enobreceu-me. Ou seja, a miséria me deu assunto e lucro. Ali, no carro blindado, diante do menino, eu fazia parte da miséria. Não basta sofrermos com o ‘absurdo’ da miséria; é preciso explicá-la.

Com a indústria de armas, as drogas, a internet, a miséria foi tocada pela evolução do capitalismo. A violência é até uma trágica ‘modernização’ da miséria. Ninguém sabe o que fazer com a neomiséria; por isso, a invenção das UPPs foi tão oportuna e original diante do óbvio. Hoje, a miséria é grande demais para ser erradicada – temos de incorporá-la. Temos de conviver com ela, pois também somos miseráveis na alma, em nossa amarga alegria, em nossa ignorância política, em nossas noites vazias nos bares, em síndromes de pânico, no narcisismo deslavado entre as celebridades, nas liberdades irrelevantes. A miséria está até na moda – vejam este texto de um catálogo ‘fashion’:

“Use uma calça bacana, toda desgastada, bata na calça com martelo, dê uma ralada no asfalto, atropele seu jeans, passe por cima dele com o carro. A moda pede peças puídas, como ficam depois de um ataque das traças ou baratas. E, se você tem algo a dizer sobre a vida, diga com sua camiseta, nas estampas com frases no peito…”.

Somos vítimas da miséria pelo avesso, porque poderíamos ter um país muito melhor se fôssemos mais generosos. Menos egoísmo seria bom para o ‘mercado’. Mas, a ‘tigrada’ do poder só pensa a curto prazo.

Antes, só falava de miséria quem não era miserável, em ‘fome’ quem comia bem. Agora, os miseráveis já falam de nós.

Assim como a corrupção nos abre os olhos, denunciando a urgente reforma do Poder Judiciário paralítico, a violência prova o fracasso da administração pública. Não resolveremos nada. Os miseráveis é que vão fazer isso, aos poucos. E estão se expressando em movimentos de afirmação das periferias. Os marginalizados vão sair do horror para serem fontes de expressão vital. A miséria está nos educando.

E o problema é que ninguém sabe o que fazer. Cada vez mais o mundo vive a dor de um ‘mal’ difuso e sem culpados claros. Zygmunt Bauman, o filósofo polonês, estudioso da sociedade contemporânea, criador do conceito de ‘modernidade líquida’, diz coisas excelentes em um diagnóstico do mundo atual.

Mas, como sempre, na hora das ‘soluções’, surge a impotência cheia de esperanças. O que fazer?

Aí, ele propõe três caminhos para diminuir a pobreza no mundo:

1 – conscientizar as pessoas de que crescimento econômico tem limites;

2 – mudar a lógica social dos governos, para que os cidadãos enriqueçam suas vidas por outros meios que não apenas bens materiais; e

3 – convencer os capitalistas a distribuir lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas em função de benefícios sociais e ambientais.

Ótimo! Boa ideia! Agora só falta combinar com Wall Street e psicanalisar os governantes das nações poderosas.

 

GOVERNO SUSPENDE KIT EDUCATIVO SOBRE AIDS

sexta-feira, 22 de Março de 2013

Ministro da Saúde diz que não autorizou distribuição de revistinhas em escolas.

 

* “Acho importante toda forma diferente de abordar esses temas na escola, em vez de palestras chatas do nosso tempo.”
Rodrigo Ramos

* “Fazem todo o  material e não vão usar? Dinheiro do contribuinte jogado fora e ignorância.”
Melissa Melles Grindheim

* “A aids é uma doença terrível que atinge muitos brasileiros. Qual o problema em levantar esta questão?”
Antonio Rogerio Costa

O Estado de São Paulo, 17 de março de 2013

 

 

ACORDA BRASIL

segunda-feira, 18 de Março de 2013

 

ACORDA BRASIL

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É um absurdo saber que o Ilmo Sr. Senador José Sarney tenha feito um Projeto de Lei, de número 112, de 2006, alterando as leis vigentes de proteção ao trabalho para pessoas com deficiência. Pior ainda é saber que foi votado ontem e aprovado na íntegra. Sua proposta, dentre outras providências, é reduzir a cota atual de até 5% de reserva de vagas em empresas, para 3%, somente.

Hoje, temos a estimativa de aproximadamente 45 milhões de pessoas com deficiência no país, das quais, somente 3 ou 4 milhões encontram-se empregadas, em empregos formais, segundo  o Ministério do Trabalho. A lei que favorece a contratação de pessoas com deficiência, levou centenas de anos para ser promulgada e 8 anos e meio para ser regulamentada. Mesmo vigente, a grande maioria das empresas não cumpre a lei, nem mesmo os órgãos públicos. Esta população sempre foi excluída e ainda hoje, existe muito preconceito para com ela.

Depois de tanta luta pela inclusão, vem o Sr. Sarney propor um retrocesso às mínimas conquistas conseguidas com tanto sacrifício. Quanto estes ilustres senadores conhecem sobre o mundo das pessoas com deficiência? Quanto conhecem sobre suas dificuldades, frustrações e discriminação? Quantos estes senhores conhecem sobre o sofrimento e dificuldade de suas famílias? Na própria justificativa deste projeto de lei alega que faltam dados sobre esta população. Desconhecem onde moram, suas reais necessidades, quantos somam realmente. Então, como fazer um projeto sobre uma população que nem ao menos conhece?

Ainda neste nefasto projeto, adota e legaliza a terceirização de pessoas com deficiência, como parte do cumprimento da cota reserva e legaliza a compensação da cota, revertendo para programas profissionalizantes. Era tudo o que as empresas e seus administradores gostariam de ter. Realmente o sonho de consumo da grande maioria dos empresários, pois ninguém quer conviver com a pessoa com deficiência. Esta é a verdade nua e crua. Perdi a conta das centenas de vezes que recebi a proposta para “deixar” na instituição as pessoas com deficiência contratadas por uma determinada organização, mesmo recebendo salário e benefícios, desde que nunca aparecessem na empresa. Ninguém quer conviver com o que é diferente. Todo mundo busca o padrão. Padrão do bonito e do ideal. Ninguém gosta do que foge do padrão. Certa vez ouvi de um empresário, uma definição para o convívio com a pessoa com deficiência: “ – Deficiente é como a feira, todo mundo gosta, mas ninguém quer na porta da sua casa”.

Isto é real. Todos acham os programas de inclusão social maravilhosos, mas longe deles.

Quanto a favorecer os processos de profissionalização, sou totalmente a favor, já faço isto há 20 anos, mas não da forma proposta pelos ilustres senadores. Se os órgãos públicos tivessem a capacidade e potencial de realizar estes programas de qualificação, já o teriam feito. Nossos professores de ensino básico, em escolas regulares, públicas ou privadas, se quer sabem como preparar material didático para cada tipo de deficiência, salvo raríssimas exceções. Vamos esperar que os cursos profissionalizantes atendam à demanda desta população especial? Só se acreditarmos em Papai Noel.

Continuando as propostas desastrosas deste projeto, legaliza oficinas protegidas, que mais uma vez excluem as pessoas do convívio social.

Quanto à reserva de vagas públicas, reduz de 5% para 3% também. Hoje não cumprem o mínimo necessário e ainda querem reduzir.

Como se não bastasse tudo isso, tem o Ilmo Senador Benedito de Lira, com outro projeto de lei, concomitante, também votado e aprovado ontem, alterando a Lei 8.213/91, em seu artigo 93, transferindo a responsabilidade de contratar pessoas com deficiência, para simplesmente repassar valores financeiros para o FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador – verba esta frequentemente desviada e não comprovada efetivamente como profícua em processos de inclusão social, especialmente para pessoas com deficiência.

Acorda Brasil. Querem novamente passar a perna na população mais carente, mais necessitada, que não tem expressividade para bater de frente com o poder que se estabelece, em nome deles e contra eles. Vamos ficar de braços cruzados mais uma vez?

Eu não ficarei calada, manifestem-se, afinal, somos todos potenciais deficientes e com certeza futuros anciãos, que tornar-se-ão deficientes também.

Vamos juntos levantar a nossa voz, afinal os senadores e, políticos em geral, são os nossos representantes e nossa vontade deve imperar!!!!!

 

Açucena Calixto Bonanato

Presidente Instituto Pró-Cidadania

UMMUNTU NGUMUNTU NAGABANTU

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

 

Ummuntu ngumuntu nagabantu

Um antropólogo estava estudando uma tribo na África, chamada “Ubuntu”, e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa.

Sobrava muito tempo,  então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado.

Quando ele disse “Já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto.

Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem, felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: ***Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”

*Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: “Sou quem sou, porque somos todos nós!”

*Na tradução literal da expressão inteira que é utilizada por esse povo:

*Umuntu ngumuntu nagabantu” significa:

* *”**Uma pessoa só é uma pessoa por causa das outras pessoas**”* *.

 

UBUNTU PARA VOCÊ!

enviada por Marina Garrido, São Paulo – SP.

NENHUMA SIGLA PODE SE CONSIDERAR A GRANDE VITORIOSA

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Análise

Nenhuma sigla pode se considerar a grande vitoriosa

ELIANE CANTANHÊDE COLUNISTA DA FOLHA

Afora o PSB e o PMDB, as vitórias em capitais no primeiro turno foram fatiadas entre vários partidos

O segundo turno entre o tucano José Serra e o petista Fernando Haddad em São Paulo garante sobrevida à polarização nacional PSDB-PT, mas o principal marco da eleição para prefeituras de capitais neste ano foi a pulverização partidária.

Nenhuma sigla pode se arrogar como grande vitoriosa. Afora o PSB, que ganhou em Belo Horizonte e Recife, e o PMDB, que levou no Rio de Janeiro e em Boa Vista, as vitórias em primeiro turno foram fatiadas entre vários partidos, cada um deles com uma capital. São eles: PDT (Porto Alegre), PT (Goiânia), PP (Palmas), PSDB (Maceió) e DEM (Aracaju).

O partido que mais concorre às capitais em segundo turno é o PSDB, em oito. Depois o PT, com cinco, o PDT, com quatro, e o PMDB, com três.

É claro, porém, que há capitais e capitais. No eixo político e econômico do país, sobressaem-se os principais partidos, com PMDB consolidado como força hegemônica no Rio, o PSB em aliança com o PSDB, em BH, e PT e PSDB disputando São Paulo.

O PMDB, que tem a maior capilaridade nacional, fez o maior número de prefeituras, incluindo capitais e interior. Em segundo lugar está o PSDB, e o PT, em terceiro, segundo dados de ontem.

CACIQUES

A presidente Dilma Rousseff pode se considerar perdedora na eleição, já que articulou pessoalmente a desistência do PMDB e o apoio do PSD ao candidato do PT em Belo Horizonte, Patrus Ananias, que foi derrotado.

O vitorioso foi o atual prefeito, Marcio Lacerda, do PSB, em uma aliança que pode se tornar perigosa para Dilma em 2014: entre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, e o senador Aécio Neves, do PSDB.

Campos tem um pé no governo e outro na oposição e, se não se arvorar ele mesmo em candidato, tanto pode apoiar Dilma quanto Aécio na sucessão presidencial.

O ex-presidente Lula também sofreu derrota doída em Recife, onde a cúpula nacional do PT vetou a candidatura do prefeito João da Costa à reeleição e amargou o terceiro lugar com um nome imposto de cima para baixo.

A derrota ou a vitória de Lula, porém, como a do governador Geraldo Alckmin, depende dos resultados do segundo turno em São Paulo, onde as campanhas devem ser acirradas e agressivas. O que está em jogo, ali, é muito mais do que só a principal prefeitura do país.

Ali também começam a se desenhar as alianças que vão extrapolar as eleições municipais e tendem a chegar à eleição presidencial.

Se Eduardo Campos derrotou Lula e o PT em BH e Recife, o vice-presidente Michel Temer correu para providenciar ontem mesmo o apoio do PMDB a Haddad em São Paulo. Está garantindo o próprio espaço em 2014.
FSP 8/10/12

 

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