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O outro lado da Noticia

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O PODER DE ROSEMARY

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

 

 

SÃO PAULO – Não é da tradição do jornalismo brasileiro tratar da vida privada dos políticos. Diferentemente do que ocorre nos EUA e em outros países, opção sexual, amantes, bebedeiras e uso de drogas não são normalmente considerados como assuntos para reportagens.

O entendimento muda se o sujeito mistura sua vida particular com a profissional. Um prefeito, por exemplo, que nomeie a sobrinha para um cargo público pode acabar virando notícia. O mesmo ocorre com um secretário de Segurança que frequente a casa de um chefe de quadrilha.

Na sexta passada, a PF indiciou, por suspeita de corrupção e tráfico de influência, a assessora Rosemary Noronha. Ex-secretária do PT, foi nomeada no governo Lula para o cargo de chefe de gabinete do escritório da Presidência em SP e rodou o mundo a serviço do Planalto, viajando com o então presidente para 23 países.

Acumulou tanto poder que conseguiu, inclusive, emplacar diretores em agências reguladoras mesmo quando havia resistência no Congresso. Em situação incomum, o Senado aprovou um nome indicado por Rose que vetara quatro meses antes.

Há anos especula-se nos corredores do governo sobre a origem do seu poder, zum-zum-zum que cresceu agora com a ação da PF. Em editorial, o jornal “O Estado de S. Paulo” disse que sua influência “derivava diretamente de sua intimidade com Lula”.

Diante da gravidade das acusações da PF, Lula deveria dar explicações sobre sua antiga assessora. Ela tem qualificações para o cargo que ocupava? Quais eram suas atribuições nas viagens e por que ganhou passaporte diplomático? E como conseguiu dobrar o Senado?

Dilma, que a deixou no cargo até sábado, também deveria prestar esclarecimentos. Se a função de Rose era tão importante, por qual razão a presidente simplesmente extinguiu o seu cargo após as revelações da PF?

Sem explicações convincentes, resta uma questão: Lula misturou sua vida privada com a pública?

Rogério Gentile                               Folha de São Paulo 29 de novembro de 2012

NO VERMELHO

terça-feira, 20 de novembro de 2012

 

BRASÍLIA – Se os ministros têm rasgos de sinceridade e são os primeiros a reconhecer que as coisas não andam como deveriam, quem somos nós para discordar?

Miriam Belchior, do Planejamento, admitiu que atrasos são “a regra do jogo”, enquanto apresentava um cronograma de obras prioritárias cheio de sinais verdes duvidosos. E José Eduardo Cardozo, da Justiça, já disse que as prisões são medievais -prefere morrer a ficar preso.

O Planejamento cuida do PAC, programa que mereceu incontáveis apresentações midiáticas e alavancou a candidatura Dilma Rousseff à Presidência. Já o Ministério da Justiça é responsável pelo sistema penitenciário e pela guarda de presos em condições humanas e dignas. E Belchior e Cardozo são do partido que completa dez anos no poder.

Suas falas não caíram no vazio. Neste mesmo espaço, pela ordem, Valdo Cruz, eu, Melchiades Filho e Fernando Rodrigues apontamos o descompasso entre a imagem de eficiência e a eficiência real do governo.

Exemplos: as vencedoras das licitações dos aeroportos tinham experiência, sei lá, no Butão e na Conchinchina; as novas concessões subiram no telhado; o programa dos portos encalhou; o mercado reclama de “quebra de contrato” na energia elétrica; o setor aéreo pinta e borda; os apagões são rotineiros; a Petrobras só dá más notícias.

Mas, apesar dessas e outras, o governo é muito bem avaliado desde o início e Dilma continua concorrendo com Lula em popularidade.

Para Gustavo Patu, um dos autores da reportagem de hoje sobre PAC e atrasos, há duas explicações para o descompasso entre imagem e realidade: o marketing excelente, herdado de Lula, e os dados de emprego, que são, de fato, muito bons.

A “gerentona” Dilma não deve se contentar só com isso. Tem de descobrir o que está errado. Um bom começo seria ouvir ou demitir os seus ministros -e não só gritar com eles.

Eliane Cantanhêde    Folha de São Paulo, 20 de novembro de 2012
elianec@uol.com.br

 

 

TIRIRICA

domingo, 11 de novembro de 2012

 

EVOLUÇÃO E NÃO APENAS EXAUSTÃO

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Evolução – e não apenas exaustão

02 de novembro de 2012 | 2h 01

 

WASHINGTON NOVAES – JORNALISTA. E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR – O Estado de S.Paulo

Por mais que se queira não se consegue fugir ao tema que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chamou durante a conferência Rio+20, em junho, de “exaustão do sistema econômico e social planetário” – 868 milhões de pessoas que passam fome todos os dias, 1,3 bilhão vivendo abaixo da linha da pobreza, população total de 7 bilhões avançado para 9 bilhões até meados do século, recursos naturais usados em ritmo superior à reposição, “crise de finitude de recursos”, impasse na produção de alimentos. Como produzir para mais 2 bilhões de pessoas no atual quadro?

Segundo a Rádio ONU, estudos do Banco Mundial dizem que, embora a pobreza venha diminuindo, 22% da população do mundo “em desenvolvimento” ainda vive com menos de US$ 1,25 por dia (era 1,94 bilhão em 1981, baixou para 1,29 bilhão no fim da década passada; em 2015 ainda haverá 1 bilhão). Na África Subsaariana, uma em quatro pessoas na população de 856 milhões é subnutrida. Mesmo nos Estados Unidos 18,2% da população tem, segundo o Gallup, dificuldade para comprar alimentos (TV-Novosti, 28/9) – embora a própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) venha advertindo sobre o desperdício de 1,3 bilhão de toneladas anuais de alimentos no mundo, principalmente nos países mais ricos.

Um dos documentos mais contundentes, divulgado na semana passada em Nairóbi (Quênia) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), diz que “os sustentáculos da segurança alimentar e da biodiversidade no mundo estão sendo minados”. É urgente, por isso, incluir na agricultura e no seu planejamento os serviços prestados pela natureza para avaliar a situação em cada lugar – da mesma forma que, na Rio+20, a Universidade da ONU propôs um novo indicador, em lugar do produto interno bruto (PIB); esse Índice de Riqueza Inclusiva, avaliando o crescimento da China entre 1990 e 2008, e incluindo a perda de recursos naturais, baixou a taxa de 422% para menos de 20%; no Brasil, o índice caiu de mais de 40% no mesmo período para 13%.

O documento do Pnuma avalia a situação nas áreas da sobrepesca, do uso insustentável da água, das práticas agrícolas que degradam o ambiente e propõe novos caminhos – como na estocagem de alimentos de pequenos produtores (para eliminar desperdícios), uso restrito de fertilizantes e pesticidas, redução da mecanização. Tudo é fundamental, diz o Pnuma, já que a agricultura provê 90% do consumo mundial de calorias e a pesca, os outros 10%. Mas, na primeira a competição pelo uso da água na irrigação, a perda da biodiversidade (com consequências na erosão e desertificação) e os desastres climáticos estão levando a situações insustentáveis. Na pesca, 55% dos estoques de espécies estão “plenamente explorados”, 32% “explorados em excesso”, 3% esgotados e 15% “moderadamente explorados”. Os hábitats costeiros de espécies, recifes de corais e mangues já se reduziram quase à metade. E o aquecimento e acidificação da água são causas importantes. Também nas culturas em áreas continentais os problemas são graves.

As recomendações incluem ainda a eliminação dos subsídios à pesca (US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões anuais) e a criação de impostos pesados para a pesca irregular; na agricultura, várias práticas para a conservação do solo, da diversidade biológica, da microfauna associada à fertilidade nas culturas, a redução de fertilizantes que provocam a eutrofização, a proibição do desmatamento.

No Brasil, estudo do Ministério do Desenvolvimento Social e da Universidade Rural Federal do Rio de Janeiro (26/10) tenta identificar as causas da alta dos preços dos alimentos para as camadas mais pobres da população, superior ao aumento inflacionário. E já aponta “o pico do preço do petróleo”, os baixos estoques, fatores climáticos e os sistemas de financiamento e de especulação financeira (já se mencionou neste espaço que há commodities agrícolas brasileiras que ao final de sua trajetória no “mercado futuro”, ao serem entregues concretamente ao consumo, já passaram por até 40 intermediários, cada um deles aumentando o preço). Diz ainda o estudo que, após a alta de preços, estes não retornam ao estágio anterior. Apesar de todos esses fatores, com o crescimento do salário mínimo e a ampliação dos programas de assistência às famílias de mais baixa renda no Brasil a situação nessa faixa melhorou. O Instituto Data Popular confirma (Estado, 22/1) que a classe E representava em 2001 cerca de 10% da população (17,3 milhões de pessoas) e em 2011 caíra para 3,6% (7 milhões).

De qualquer forma, é tudo tão preocupante que economistas da Unicamp lançaram (Carta Maior, 22/10) um Manifesto em Defesa da Civilização, no qual afirmam que vivemos um período de “profunda regressão social” nos “países ditos desenvolvidos”, com taxas muito altas de desemprego na Espanha e na Grécia. Por isso, pergunta: “Estamos vivendo crise que nega os princípios fundamentais da vida civilizada e democrática? E se isso for verdade, quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?” Termina o texto dizendo que para não haver “uma reação inevitável, violenta e incontrolável” dos estratos mais prejudicados “é preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização”.

Talvez possa ajudar nos lembrarmos de Teilhard de Chardin (O Fenômeno Humano, Editions Du Seuil, 1955), quando diz que “avançamos, como que em meio às dores de um grande parto, que traz à memória a história de crises da humanidade” – a Guerra de Troia, a queda do Império Romano, a invasão dos bárbaros, a aventura das cruzadas, as grandes navegações, as grandes descobertas e invenções, a Revolução Russa, o existencialismo, o movimento hippie, a Teologia da Libertação. Estaríamos evoluindo “para um mais-ser, um ser mais pleno e definitivo; porque o Universo, o nosso Universo, não apenas está em evolução, mas é uma evolução”.

Washington Novaes
wlrnovaes@uol.com.br

 

 

UM MURO

terça-feira, 30 de outubro de 2012

 

Um muro

Em seu discurso da vitória na eleição para prefeito de São Paulo, Fernando Haddad lembrou dos muros da desigualdade a que a cidade está submetida. Este tema dos “muros” merece, de fato, ser mais discutido, pois eles conseguem se perpetuar ao longo das sucessivas administrações que passam pela prefeitura.

Um dos muros mais impressionantes de São Paulo é aquele que isola seus intelectuais do debate sobre os rumos da maior megalópole do hemisfério Sul.

Na cidade de São Paulo encontra-se, por exemplo, a mais importante universidade da América Latina, responsável por algo em torno de 25% das pesquisas acadêmicas desenvolvidas no país. Só para se ter uma ideia desse peso proporcional, a mais importante universidade dos Estados Unidos (Harvard) responde por apenas 3% da pesquisa realizada nas universidades norte-americanas.

A cidade, no entanto, costuma não ouvir sua maior universidade quando procura por ideias e soluções para seus problemas. Ela despreza parte significativa de sua inteligência e não sabe utilizar a força crítica de seus acadêmicos a seu favor.

As inúmeras pesquisas desenvolvidas pela universidade sobre política cultural, planejamento urbano, impacto de medidas de segurança, problemas em práticas educacionais e políticas de direitos humanos são vistas pelos poderes públicos com desconfiança, já que nem sempre elas são laudatórias.

Um novo momento da política brasileira passa necessariamente pela definição de relações entre administradores que devem resolver problemas públicos complexos e intelectuais independentes que marcaram sua atuação profissional pela procura em aprimorar sua capacidade crítica.

Muitos temem que isso seja uma forma insidiosa de “cooptação”. Melhor seria lembrar que todos os países que realizaram verdadeiro desenvolvimento social só o conseguiram quando tiveram figuras públicas dispostas a escutar o que seus intelectuais e artistas tinham a dizer -mesmo que essas falas nem sempre fossem música para os ouvidos dos que estão do outro lado. Há uma escuta do dissenso que deve ser aprendida.

No momento em que o poder público volta a enxergar os muros da cidade, a universidade pode ser um importante ator de transformação social.

Se parte significativa da inteligência nacional está em São Paulo, é burrice continuar ignorando-a a fim de repetir os erros de sempre.

Colocando-se para além dos partidos e das filiações partidárias, ela sempre teve um poder de transformação menosprezado. Não há por que dar sequência a esse menosprezo.

Vladimir Safatle  – Folha de São Paulo, 30 de outubro de 2012

ATRASO SEM FIM

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Atraso sem fim

BRASÍLIA – O avião quebrado em Viracopos é o exemplo acabado do atraso da infraestrutura brasileira.

O governo do PT está há dez anos no poder. Nesse período, quem viajou de avião algumas vezes sabe muito bem: a situação só piora.

Não vale o governo dizer que tudo se deve à emocionante ascensão de milhões de brasileiros à classe média. O diagnóstico é conhecido. O problema tem sido a incapacidade de ministrar o remédio necessário.

Viracopos ficou fechado por quase dois dias. Cerca de 25 mil passageiros sofreram com o cancelamento de 500 voos no aeroporto de Campinas.

Outra grande prejudicada é a companhia aérea Azul, que opera sobretudo a partir de Viracopos. Terá de dar assistência aos passageiros prejudicados, ressarcir prejuízos, ajudar com hotéis e refeições. Sem contar o dano à imagem, pois quem pensar duas vezes agora tentará evitar a Azul -que não teve a menor responsabilidade no ocorrido.

Há dois culpados principais. Primeiro, a Centurion Cargo, cujo avião de pneu furado ficou no meio da pista. Segundo, o governo federal, que regula e comanda os aeroportos.

Viracopos só tem uma pista. Em emergências, precisaria de acesso rápido a equipamentos para remoção de obstáculos. Foram os casos dos colchões infláveis e dos caminhões com carrocerias em forma de pranchas usados para rebocar o avião nesta semana. Nada disso estava disponível no aeroporto campineiro.

Outro aspecto intrigante: como é possível um dos principais aeroportos do país operar com apenas uma pista? Haverá uma pista extra só em 2017, já sob a administração privada.

O Brasil é uma das maiores economias do planeta. Por que não se pode construir a pista nova em seis meses? Ou em um ano? Por que Lula (durante oito anos) e Dilma (já há quase dois anos no Planalto) não determinaram esse investimento de maneira emergencial para o país?

Não conheço respostas aceitáveis.

Fernando Rodrigues, Folha de São Paulo, 17 de outubro de 2012

fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

 

PELO FIM DA REMUNERAÇÃO DOS VEREADORES

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

 

Pelo fim da remuneração dos vereadores

Agora é o momento de apoiar a PEC pelo fim dos subsídios aos vereadores na maior parte das cidades. Ela vai afastar certas figuras pitorescas e indesejáveis

Ser político não é profissão. É encargo. Encargo passageiro de quem se comprometeu a servir ao próximo, a representar a vontade popular, a colaborar com o país.

Alvissareira, por isso, a proposta de emenda constitucional (PEC) 35/2012, de autoria do senador Cyro Miranda (PSDB-GO).

Resgatando, em parte, o modelo do art. 16, § 2º, da Constituição de 1967, ela propõe a extinção, nos municípios com população inferior a 50 mil habitantes, dos subsídios dos vereadores, limitando-os, ainda, nos municípios de até 100 mil, 300 mil e 500 mil habitantes.

A iniciativa visa a conferir um novo papel aos vereadores desses pequenos municípios. A atividade não remunerada resgatará o verdadeiro papel honorífico e social do exercício a política local.

Afastará do cenário político, ainda, uma série de figuras pitorescas -bem identificadas na propaganda eleitoral-, cujo intento de ingresso nas câmaras municipais é unicamente fundado no percebimento de subsídios (nem sempre módicos) pela participação em duas a quatro sessões mensais.

A Constituição Federal (artigo 38), diversamente de outros cargos eletivos, não impede, como regra, que os vereadores exerçam, concomitantemente, sua profissão. Veda, apenas, a acumulação da vereança com o cargo púbico, mas exclusivamente quando haja incompatibilidade de horários (algo raro nos municípios menores). Logo, o ocupante do cargo de vereador não deve depender dos subsídios na Câmara para manter sua vida independente.

Dados do IBGE de 2010 revelam que o Brasil tem aproximadamente 5.500 municípios, praticamente 90% deles com população inferior a 50.000 habitantes.

Levando-se em consideração que cada câmara desses municípios menores (geralmente os de menor orçamento) tem entre 9 e 13 vereadores, fácil concluir a economia de recursos com a extinção dos subsídios. Certamente, bem administrados, esses valores poderão ser vertidos em favor da saúde, obras públicas, projetos sociais etc. -ou do próprio propósito fiscalizador das Câmaras Municipais.

A extinção ou a redução dos subsídios das câmaras municipais, contudo, não precisa esperar o beneplácito do Congresso Nacional com a aprovação da PEC 35/2012.

É plenamente possível que as próprias câmaras municipais aprovem leis extinguindo ou reduzindo os subsídios dos vereadores para valores módicos, simbólicos, verdadeiras ajudas de custo.

Para isso, é fundamental que a sociedade civil e, principalmente, os eleitores destes pequenos municípios, se posicionem, exigindo de seus candidatos recém-eleitos efetivo compromisso com a extinção ou redução dos subsídios logo no início próxima legislatura.

Só assim seremos capazes de conquistar, em breve intervalo, profundo avanço na representação política municipal e na qualidade dos vereadores de nosso país.

FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI, 37, é professor doutor de direito processual da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP e juiz eleitoral

FSP 8/10/12

 

OS BONS MENINOS

domingo, 2 de setembro de 2012

 

BRASÍLIA – João Paulo Cunha nasceu em Caraguatatuba (SP), de uma família como milhões de outras neste país afora, e foi um menino como milhões de outros neste país afora. Mas embicou na vida pública como muito poucos.

Já em Osasco, para onde foi com a família ainda criança, tornou-se metalúrgico e participou ativamente da Pastoral da Juventude, da mobilização de operários, da fundação do PT. Brandia a ética e a igualdade. Bom menino, bom rapaz.

Tudo mudou quando Lula subiu a rampa do Planalto, o PT deixou de ser oposição e se atirou de corpo e alma aos prazeres e às chances do poder. Sem lastro político nacional, sem verniz intelectual, sem liderança parlamentar, João Paulo deu um salto maior que as pernas: assumiu a presidência da Câmara dos Deputados já no primeiro ano de Lula.

O início do fim. Trocou o passado de lutas e o futuro promissor por um vício: a embriaguez do poder, em que “os fins justificam os meios”. Quis ser tudo, virou nada. Ontem, o Wikipédia já dizia que João Paulo Cunha “foi” um político brasileiro.

Sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal, por contundentes 9 a 2, entra para a história como o fim de uma era. Vai-se a impunidade, vem a responsabilidade. A Câmara dos Deputados, o Banco do Brasil, a Petrobras, a Presidência da

República -as instituições, enfim- não têm donos, ou dono. São do Estado e servem à nação.

Isso vale para o Supremo, até mais do que para todas as demais. Lê-se que Lula está triste, acabrunhado, por sentir-se “traído”. Dos 11 ministros (incluindo Peluso), 8 foram colocados ali nos governos petistas e só 2 votaram pela absolvição de João Paulo -por extensão, do PT.

A corte suprema não vota mais com os poderosos, pelos poderosos. Julga com a lei, pela justiça. Inaugura, assim, um novo Brasil.

Bons meninos terão de se comportar sempre como bons cidadãos.

Eliane Cantanhêde – Folha de São Paulo, 2 de setembro de 2012.
elianec@uol.com.br

 

 

JARDIM DE INFÂNCIA

domingo, 19 de agosto de 2012

 

Jardim de infância

BRASÍLIA – Um apelo à presidente Dilma Rousseff: por favor, capriche na escolha dos próximos ministros do Supremo Tribunal Federal. Tem de agradar o PT e o PMDB, preencher a cota disso e daquilo? Põe no Turismo. Que tal na Pesca? Mas na corte suprema do país não dá.

O ex-presidente Cezar Peluso completa a idade limite em setembro e o atual, Carlos Ayres Britto, em novembro. O decano Celso de Mello arruma as malas para sair antes do tempo.

Dos experientes, vão sobrar dois: Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes. Ambos são tecnicamente muito respeitados, mas um é do contra e o outro dá a vida por uma polêmica. Pior: os dois se detestam e olham à volta como se estivessem ilhados. Até quando Gilmar Mendes e seu pavio curto vão resistir? Será que também vai pular fora, como Celso de Mello?

Numa hora, sussurra-se que o relator do mensalão, Joaquim Barbosa, não suporta mais a pressão e as dores na coluna. Noutra, o revisor, Ricardo Lewandowski, admite que se sente atropelado pelos colegas de toga e ameaça renunciar. Ora reclama que não foi consultado sobre o cronograma e o rito do julgamento. Ora que não combinaram a metodologia dos votos previamente com ele.

Se diante das câmeras de TV já está esse clima que se vê, pode-se supor como está nos bastidores. Nervos à flor da pele, cansaço, incômodo pelas longas horas de exposição pública e, afinal, o peso da responsabilidade diante do que se convencionou chamar de “o maior julgamento da história do Supremo” ou do “maior escândalo do governo Lula”.

É assim que o sujeito do tridente gosta. E é quando explodem as vaidades, as falhas humanas, as disputas internas de poder. Sem falar no mais grave: a falta de consistência.

Discordar é preciso, argumentar é fundamental, mas bater boca, fazer birra e rodar a toga parecem coisa de jardim de infância, não da mais alta corte do país decidindo sobre a reputação e o destino de 38 cidadãos.

Eliane Cantanhêde                      Folha de São Paulo, 19 de agosto de 2012
elianec@uol.com.br

 

MENSALÃO – O JULGAMENTO

sábado, 28 de julho de 2012

 Mensalão foi o maior caso de corrupção do país, diz Gurgel

Procurador da República encaminhou uma última manifestação ao STF

No texto, ele afirma aos ministros do Supremo que esquema foi o ‘mais atrevido e escandaloso’ já flagrado no Brasil

FELIPE SELIGMAN DE BRASÍLIA

Em sua última manifestação formal antes do início do julgamento do mensalão, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, enviou aos ministros do Supremo Tribunal Federal um documento no qual afirma que o caso foi “o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil”.

A expressão faz parte de um vasto memorial que foi entregue na última semana aos 11 integrantes do Supremo e obtido pela Folha. O julgamento começa na quinta.

Ao enviar o material, Gurgel visa facilitar o trabalho dos ministros, caso advogados contestem provas citadas pela acusação, ou afirmem que não existem indícios sobre um ou outro ponto.

O que Gurgel fez foi pinçar das mais de 50 mil páginas do processo o que chamou de “principais provas” contra os acusados. Esses documentos (como perícias, depoimentos e interrogatórios) foram separados pelo nome de cada réu, em dois volumes.

Nos últimos dias, advogados de defesa também entregaram os seus memoriais.

No texto em que Gurgel chama o mensalão de o mais “escandaloso esquema”, o procurador retoma uma frase que usou nas alegações finais, enviadas ao Supremo no ano passado, quando havia dito que a atuação do STF deveria servir de exemplo contra atos de corrupção.

Agora, diz que “a atuação do Supremo Tribunal Federal servirá de exemplo, verdadeiro paradigma histórico, para todo o Poder Judiciário brasileiro e, principalmente, para toda a sociedade, a fim de que os atos de corrupção, mazela desgraçada e insistentemente epidêmica no Brasil, sejam tratados com rigor necessário”.

Em outro ponto, ele afirma que o mensalão representou “um sistema de enorme movimentação financeira à margem da legalidade, com o objetivo espúrio de comprar os votos de parlamentares tidos como especialmente relevantes pelos líderes criminosos.”

Em sua manifestação final, Gurgel tentou relembrar alguns detalhes fundamentais, como o papel do núcleo financeiro do esquema.

“Impressiona constatar que as ações dos dirigentes do Banco Rural perpassaram todas as etapas do esquema ilícito, desde sua origem (financiamento), passando pela sua operacionalização (distribuição) e, ao final, garantindo a sua impunidade pela omissão na comunicação das operações suspeitas aos órgãos de controle”, afirma.

Ao resumir o que a ação contém, o procurador concluiu: “Colheu-se um substancioso conjunto de provas que não deixa dúvidas à procedência de acusação”.

FELIPE SELIGMAN DE BRASÍLIA

Felipe Seligmas – de Brasília – Folha de São Paulo, 28 de julho de 2012

 

QUERO LER O DIÁRIO DA DILMA

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Quero ler o diário da Dilma

SÃO PAULO – Vou enviar o pedido, registrado e em três vias, com base na Lei de Acesso à Informação: quero ler o diário da Dilma. Não o da revista “piauí”, que faz piada com o jeitão da presidente e satiriza uma paixão improvável pelo ministro Edison Lobão. Quero o diário original, o verdadeiro. Onde ela registra pensamentos que não revela nem para a mãe, dona Dilma Jane, no tricô do Palácio da Alvorada.

Você pode se interessar mais em saber por quem bate o coração presidencial, um dos maiores segredos da República. Eu dispenso a intriga palaciana e corro para as páginas seguintes. Quero descobrir o que Dilma sente sobre o julgamento do mensalão e a eleição em São Paulo.

Enquanto as confissões não chegam, arrisco um palpite: onde o PT marcar A, ela marca B. Onde Lula for papel, ela é tesoura. Ou o contrário, a depender do Supremo e do eleitor.

Dilma foi quem mais lucrou com o mensalão. Quando o escândalo surgiu, ela ocupava um ministério menor, hoje de Lobão. A queda de Dirceu a alçou à Casa Civil e eliminou o sucessor natural de Lula. Foi a desgraça dele e de Palocci, no episódio do caseiro, que permitiu a ascensão da ex-guerrilheira que não tinha disputado nem eleição para vereador.

Se os mensaleiros forem condenados, Dilma assistirá a mais um golpe na ala petista que sonha com o “Volta Lula” em 2014. E poderá dizer que respeitou a autonomia do Judiciário na ruína do próprio partido. Para quem surfou no marketing da faxina, vale mais que demitir dez ministros.

Em São Paulo, a distância entre os interesses da presidente e os do PT é ainda mais clara. Se Haddad chegar lá, a vitória será só de Lula. Se perder, todos dirão que não basta um dedaço para ganhar eleição. Ou seja, Dilma não se resume a um poste. Não é à toa que ela tem se dedicado mais à campanha de Belo Horizonte.

Os palpites estão aí, e o meu pedido, a esta hora, já deve estar carimbado no Palácio do Planalto. Agora podem mandar o diário?

Bernardo Mello Franco  –  Folha de São Paulo, 26 de julho de 2012

 

DERRORA MILITAR SE COMTRAPÕE À VITÓRIA POLÍTICA

domingo, 8 de julho de 2012

 Derrota militar se contrapõe à vitória política

Feriado mais importante de São Paulo, a Revolução de 1932 durou quase três meses até a rendição paulista e foi uma reação ao cenário político de Getúlio Vargas.

“O foco foi justamente a questão democrática, a convocação de uma constituinte. São Paulo teve uma derrota militar, mas uma vitória política”, conta o historiador Marco Antonio Villa.

Pois no ano seguinte foram realizadas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte -quando as mulheres votaram pela primeira vez. E, em 1934, começou o processo de uma nova Constituição no país.

Segundo Villa, estima-se que a revolução provocou entre 1.500 e 2.000 mortes.

“A memória da revolução ficou mais guardada no interior do que na Capital. O Obelisco do Ibirapuera está abandonado”, disse. “Infelizmente é uma história desconhecida da maior parte dos brasileiros. O regime

militar acabou apagando um pouco a data.”

(LR) FSP 8/7/2012

LIXO AMONTOADO

quarta-feira, 4 de julho de 2012

 

 

Lixo amontoado

CPI do Cachoeira deveria usar indícios contra prefeito petista no TO para mostrar algum ânimo de investigar, que parece estar em férias

Não fosse pelo surgimento de uma conexão petista em Palmas (TO), a situação do caso Cachoeira estaria bem caracterizada pela cena absurda de um senador-Demóstenes Torres (ex-DEM), pivô do escândalo- a apresentar defesa veemente contra sua provável cassação diante do plenário vazio.

Veemência e ociosidade tampouco têm faltado na CPI mista criada no Congresso para investigar as relações do empresário de jogos Carlos Augusto Ramos (alcunhado Carlinhos Cachoeira) e da construtora Delta com uma chusma suprapartidária de políticos.

A diferença está em que, nesse outro plenário, não faltam senadores e deputados. O que lhe falta é empenho e consequência na investigação. Muito se fala e esbraveja, ali, mas pouco se apura e revela.

Houve quem saísse da sala sob aplausos, como o governador Agnelo Queiroz (PT-DF), cuja administração não teve ainda inteiramente esclarecidas tratativas com a Delta e alegações de influência de Cachoeira. Outro governador colhido no turbilhão de pagamentos sob exame, Marconi Perillo (PSDB-GO), enfrenta escrutínio mais perseverante do relator Odair Cunha (PT-MG), mas todo o barulho se dá por conta de uma enrolada compra e venda de casa.

Diante de tanta inatividade, que tende a aumentar com as férias escolares de julho e a aproximação das campanhas eleitorais, o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), não parece ter muito a temer.

Vídeos de conversas suas -sobre lixo, tema mais que metaforicamente apropriado- com Cachoeira em 2004, revelados pelo programa de TV “Fantástico”, soam bem comprometedores. Mas nada que uma versão fantasiosa não possa abafar sob toneladas de cinismo parlamentar.

Raul Filho reconhece o apoio de Cachoeira à sua campanha eleitoral vitoriosa de 2004. Nega, porém, que haja relação entre a ajuda e a obtenção, pela onipresente Delta, de pelo menos um contrato milionário, no seu primeiro mandato, para coleta de lixo -que mais?

Não é a primeira vez nem será a última que uma administração municipal -petista ou não- mistura falcatruas com detritos. Tampouco é por acaso que empreiteiras oportunistas criaram subsidiárias especializadas em recolher lixo urbano e distribuir propinas.

Convocar Raul Filho para depor é uma das tantas obrigações que a CPI do Cachoeira teria de cumprir para não atulhar a vala cheia das comissões que não dão em nada.

EDITORIAIS     – editoriais@uol.com.br   – FSP 4/7/2012

SALÁRIOS NA REDE

terça-feira, 22 de maio de 2012

 Salários na rede

SÃO PAULO – Parece-me artificial a polêmica sobre se devemos ou não divulgar os salários dos servidores públicos na internet. Se queremos que a tal da moralidade pública se instale aqui, precisamos antes de mais nada criar as condições para que ela exista, sendo a transparência a mais elementar delas.

A ideia foi desenvolvida por Immanuel Kant, para quem a publicidade das ações do Estado é não só uma exigência política como moral. O filósofo prussiano teria aplaudido a Lei de Acesso à Informação.

Os argumentos usados pelos que se opõem à abertura dos dados não me convencem. É claro que a divulgação, em algum grau, reduz a privacidade do servidor. Mas nenhuma proteção constitucional pode valer de forma absoluta, sob pena de anular todas as demais. É preciso traçar uma linha entre a intimidade a ser preservada e as informações que devem ser tornadas públicas, até para que possamos combater fraudes.

Faz todo o sentido resguardar dados bancários que permitam descobrir onde cada cidadão gasta seu dinheiro, se doando para a igreja ou em casas de má reputação. Mas daí não se segue que devamos impedir a sociedade de saber quanto paga a cada funcionário que contratou. Vale lembrar que as faixas salariais por carreira, excluídas vantagens pessoais, já são amplamente divulgadas.

Também parece excessivo afirmar que a divulgação coloca em risco a segurança pessoal e familiar do servidor. Bandidos não precisam de acesso a contracheques para decidir quem vão assaltar, sequestrar ou chantagear. Eles se fiam nos sinais exteriores de riqueza. Aliás, se há algo em que os seres humanos são bons, é em identificar o status social das pessoas com quem interagem.

Num Estado moderno, a folha salarial do poder público precisa ser pública. Quem se incomoda demais em ter o valor de seus vencimentos revelados deve limitar suas opções de carreira à iniciativa privada.

Hélio Schwartsman – Folha de São Paulo, 22 de maio de 2012
helio@uol.com.br

 

TENHO ALGO A DIZER

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Tenho algo a dizer

Arte-educadora paralisada há dez anos por um derrame defende hoje sua tese de doutorado; sem poder falar, Ana Barbosa, 46, se comunica com a ajuda de uma tabela de letras, que ela seleciona com movimentos do rosto, uma a uma.

 

Marlene Bergamo/Folhapress

 

 

 

 

 

 

 

Ela não fala, não come, não se move. Mas pinta, estuda e ensina arte a crianças que nasceram com paralisia cerebral. Tudo isso usando o olhar, um leve movimento de queixo e um programa de computador desenvolvido especialmente para ela.

Hoje, às 14h, a artista plástica Ana Amália Tavares Barbosa, 46, defende sua tese de doutorado em arte e educação no Museu de Arte Contemporânea da USP, iniciada quando já estava paralisada.

O estudo, intitulado “Além do Corpo”, é fruto de três anos de trabalho com artes visuais desenvolvido com um grupo de seis crianças com lesões cerebrais, atendidas na Associação Nosso Sonho, onde Ana também leciona.

Todas as crianças usam cadeiras de rodas, não falam e têm dificuldade de enxergar. Assim como a professora.

Em 2 de julho de 2002, exatamente no dia da defesa da sua dissertação de mestrado na ECA (Escola de Comunicações e Artes), Ana Amália sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) no tronco cerebral e ficou tetraplégica, muda e disfágica (não consegue mastigar e engolir).

“Ela começou a passar mal quando uma das pessoas da banca não apareceu porque confundiu as datas. No hospital, foi perdendo os movimentos, começando pelas pernas”, conta a mãe Ana Mae Barbosa, 75, professora aposentada da Faculdade de Educação da USP.

O pai, João Alexandre Costa Barbosa (morto em 2006), crítico literário e também professor aposentado da USP, acompanhava a filha.

Ele relatou à mulher as últimas palavras de Ana Amália. Ao escutar o médico perguntando se ela era muito nervosa, disparou: “Por que vocês médicos sempre acham que a culpa é do paciente?”.

Como sequela, Ana Amália ficou com síndrome do encarceramento (“locked in”), retratada no filme “O Escafandro e a Borboleta” (2007).

“No primeiro ano, ela só dizia: ‘eu quero morrer’. Depois, voltou a se apossar da vida”, diz a mãe.

Foram 40 dias de UTI e quatro meses de internação até Ana Amália voltar para casa. A família conta com três enfermeiras, que se revezam 24 horas, duas fonoaudiólogas e duas fisioterapeutas.

Com a cognição e a memória preservadas, Ana se comunica por meio de um cartão com letras e de um programa de computador (veja quadro abaixo), desenvolvido pelas redes Sarah (Brasília) e Lucy Montoro (SP).

O atual desafio é fazer com que ela mastigue e engula a comida. Ana usa um cateter ligado ao estômago.

Ana Mae consulta a filha o tempo todo. “Quantos semestres você cursou psicologia na PUC como ouvinte? Dois, três, quatro.” Ao ouvir quatro, Ana pisca os olhos. “Ela é a minha memória.”

A terceira Ana da casa, Ana Lia, 11, tinha apenas um ano e oito meses quando a mãe sofreu o AVC. “Aos poucos, ela aprendeu a interpretar meus olhares”, escreve, com os olhos, Ana Amália.

Os desenhos também foram (e continuam sendo) uma conexão entre as duas.

DOUTORADO

No projeto de doutorado, Ana Amália trabalhou, com a ajuda de assistentes, a percepção corporal dos alunos.

Uma das atividades foi desenhar o contorno dos corpos em papel, depois recortá-los e pintá-los. Por fim, construir cenas nas quais os corpos brincam. “Eles exploram o espaço já que não podem fazê-lo na vida real, pois estão presos à cadeira de roda.”

Outra preocupação foi a inclusão cultural dos alunos. Ana Amália os levou a espaços como o Instituto Tomie Ohtake e o Jardim de Esculturas (Parque da Luz).

Pergunto qual é sua principal dificuldade. “Conviver com a invisibilidade.”

CLÁUDIA COLLUCCI         Folha de São Paulo, 9 de maio de 2012

"ESTDANTES ATEIAM FOGO NA SALA DE LEITURA"

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Com aula vaga, estudantes ateiam fogo em sala

DE SÃO PAULO

A Escola Estadual Professora Eunice Marques de Moura Bastos, na Vila Curuçá (zona leste de SP), é umas das afetadas pela falta de docentes. Sem aulas, os alunos relatam que chegam a ser dispensados ou ficam no pátio da unidade.

Em uma das vezes em que isso ocorreu, em março, um grupo de estudantes ateou fogo na sala de leitura da unidade escolar. Ninguém ficou ferido.

Um aluno do terceiro ano do ensino médio diz que não tem inglês desde o início do ano e que está sem aula de biologia há dois meses.

Além disso, os professores de filosofia, artes e química faltam constantemente, afirma o estudante.

A Secretaria Estadual da Educação diz que o quadro de docentes agora está completo e que vai repor as aulas perdidas.

A pasta afirma que o incêndio não tem relação com as aulas vagas. Segundo a secretaria, desde o início do ano letivo somente os alunos do ensino médio e do EJA (Educação de Jovens e Adultos) são eventualmente dispensados.

Cotidiano – Folha de São Paulo, 25 de abril de 2012.

 

"VOLTA LULA OU FICA DILMA"

terça-feira, 24 de abril de 2012

 

 

“Volta Lula” ou “fica Dilma”

BRASÍLIA – O Datafolha brindou Dilma com duas excelentes notícias: sua popularidade bate recordes, mas o eleitor quer Lula em 2014.

O motivo de comemoração pela aprovação de 64% é óbvio: nunca antes na história do Datafolha um presidente chegou a tanto nessa mesma fase de governo.

Já a festa porque a maioria (57%) prefere Lula em 2014 a ela (32%) não tem nada de óbvia, mas talvez seja até mais importante: além de governar, de ser obrigada a demitir uma penca de ministros herdados e de ter de conviver com uma CPI, Dilma tem que administrar um dado político fundamental -o ego do padrinho.

A pesquisa ajuda a acalmar a ansiedade e a espantar os fantasmas de Lula, que, nas conversas com aliados, não para de reclamar da imprensa, da oposição e da “elite”. Quanto mais Dilma acerta e cresce, mais ele alimenta a paranoia de que tentam “desconstruir a sua imagem”.

Lula está absolutamente convencido de que foi o melhor presidente da história da humanidade, mas os adversários (entre os quais inclui a imprensa) não reconhecem. Insistem em dizer que o mensalão existiu, que ele impôs ministros que Dilma teve de defenestrar e que seu governo foi marcado por uma alegre convivência com fichas-sujas e oligarcas.

Ele não suporta ver a sua criatura se tornando mais admirada do que o criador. Sente-se injustiçado, senão perseguido, e reage com mágoa e rancor. Seu apoio à CPI é resultado desse sentimento: “doa a quem doer”, ou seja, “doa ou não em Dilma”.

O Datafolha é um bálsamo para as dores de Lula, que agora pode vangloriar-se pela escolha de Dilma como sucessora e continuar sentindo-se o “mais”, o “melhor”, o “mais amado”, o “candidato dos sonhos”.

Bálsamo para Lula, alívio para Dilma, que é cheia de dedos com Lula, ouvindo-o, reverenciando-o, mantendo-o no pedestal.

O resto é questão de tempo: até 2014, o “volta Lula” deve lentamente deslizar para o “fica Dilma”.

Eliane Cantanhêde

CPI BUMERANGUE

quinta-feira, 12 de abril de 2012

 

 

CPI bumerangue

BRASÍLIA – A articulação da CPI do Cachoeira expõe as vísceras das relações do PMDB com o PT, que formam o corpo, mas talvez não a alma, do governo Dilma Rousseff.

O PMDB, via Sarney e Renan, dá a maior força para o PT criar a CPI, deixando uma dúvida: é para valer, ou só para espicaçar o PT e, por tabela, o próprio governo? CPIs, mais cedo ou mais tarde, acabam azucrinando as vidas dos governos.

Os tentáculos de Cachoeira, conhecidos apenas em parte, atingem petistas, tucanos, democratas e outros menos cotados, mas, curiosamente, até aqui não chegou ao PMDB, partido imenso, com ramificações em todos os Estados e enormes bancadas congressuais -e que não chega a ser um santuário.

Assim, parece que o PMDB está dando corda para o PT e a oposição se enforcarem juntos. Quanto mais CPI, mais denúncias contra o PT e mais aperreio para o Planalto, mais caro fica o “apoio” peemedebista.

Quanto a Lula e Dilma, que estariam dando um empurrão para a instalação da CPI, deve-se duvidar das boas intenções e avaliar o cálculo político. Lula está em fase de penitenciar-se pelas relações perigosas e pelos exemplos nada edificantes na área ética durante o seu governo. Fora da zona de risco, empurra todos, especialmente Dilma, para enfrentarem as feras com quem confraternizava, feliz da vida.

E Dilma? Mantém no caso da CPI a mesma posição olímpica que adotou na ascensão e queda de seus ministros: assiste de longe e lava as mãos, como se Cachoeira não fosse problema dela. Mas pode acabar sendo, se a base aliada molhar-se tanto quanto a oposição.

Por enquanto, portanto, a CPI é só uma peça do jogo político, não uma realidade, principalmente porque os escândalos do Cachoeira revelam-se um típico caso bumerangue: dão uma volta danada, arranham os adversários e voltam direto na testa de quem se julga ileso. Não é, ex-quase senador Demóstenes?

Eliane Cantanhêde – Folha de São Paulo, 12 de abril de 2012

MARIN DE DIRCEU

domingo, 8 de abril de 2012

 Marin de Dirceu

Por incrível que pareça nada é mais crível que a nova aliança que surge em nosso futebol

SEGUNDO O BLOG de Josias de Souza, José Maria Marin e José Dirceu jantaram juntos em Paris e de lá voltaram no mesmo voo da Air France.

Marin, agora presidente também do Comitê Organizador Local da Copa, e Dir­ceu, consultor para toda e qualquer obra, porta de entrada eventual para o cartola no governo federal.

Ambos foram flagrados na esteira do aeroporto de Guarulhos na manhã do último dia 2, o que permite dizer que saíram da França no 1º de abril, por mais que pareça mentira.

Mas parece mentira mesmo?

Parece nada.

Faz todo sentido. Para o cartola e para o consul­tor, que não se dá conta de que parcerias que tais não ajudam a melhorar a imagem de quem se queixa de ter sido cassado injustamente e luta para recuperar seus direitos políticos.

Porque Marin precisa reabrir em Brasília as portas que Ricardo Teixeira fechou. E Dirceu joga o jogo do poder, pragmático, dane-se a cor do gato, importa que coma o rato. Ou o deixe vivo, bem vivo, se interessante for.

E Marin parece ser, como Boris Berezovsky também parecia quando o russo e o ex-ministro da Casa Civil tricotaram perigosamente nos tristes tempos da MSI/Corinthians.

O fenômeno faz parte não de duas faces da mesma moeda, mas da moeda que cai em pé para não distinguir também os petistas dos tucanos, a velha Arena e a parte podre do MDB.

Todos na mesma lama, envolvidos com o que há de pior, seja no futebol, no jogo do bicho, bingos, tráfico de influências, empreiteiras ou mega-agências de propaganda. O poder!

E, é claro, a Copa do Mundo no Brasil se presta a que quem esteja por cima nade de braçada nesta onda, tenha a origem que tiver, seja das lavanderias ou das cachoeiras, importa que jorrem.

O inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, autor do célebre poema “Marília de Dirceu”, pagou caro por seu idealismo, entre a prisão e o desterro.

Já Marin jamais foi chegado a ideal algum, a não ser ao de se dar bem e tem obtido inegável sucesso. Já Dirceu deixou para trás quaisquer veleidades do gênero, convencido de que a burguesia precisa ser vencida por dentro e que o melhor meio é juntar-se a ela, com um sorriso nos lábios.

Como se fosse o Gary Cooper da piada em que o ator se encontra cercado de índios por todos os lados e alguém lhe pergunta como fez para se safar: “Virei índio também”, responde o cowboy.

JUCA KFOURI – Folha de sSão Paulo, 8 de abril de 2012

PEQUENAS GRANDES COISAS

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pequenas grandes coisas

BRASÍLIA – Minha filha caçula, orientadora pedagógica e psicóloga de crianças e adolescentes, chorou emocionada ao ouvir pelo rádio a entrevista que o estudante Vitor Soares Cunha deu ao sair do hospital, depois de ser agredido covardemente por jovens como ele.

Vitor, 21, aluno de desenho industrial, passeava com um colega na Ilha do Governador, no Rio, quando viu cinco rapazes bem alimentados espancando um mendigo. Filho de uma assistente social (coincidência?), não pensou duas vezes ao tentar impedi-los. A violência irracional voltou-se contra ele.

Foram socos e pontapés violentos e ininterruptos, atingindo, sobretudo, a cabeça e o rosto de Vitor mesmo quando ele já estava caído no chão, totalmente indefeso.

Depois de horas de cirurgias, placas de titânio na testa e no céu da boca, 63 pinos para recompor os ossos da face e ainda com o risco de perder os movimentos do olho esquerdo, Vitor saiu com sua mãe do hospital e disse, com uma simplicidade atordoante, que não se sentia heroico e que faria tudo novamente.

“Pelo menos uma, duas, três pessoas vão pensar alguma coisa, vão ensinar para os filhos deles. Não adianta pensar que uma atitude vai mudar o mundo, mas pequenas coisas vão mudando”, declarou.

Não podemos nem devemos desperdiçar episódios, personagens e frases assim, fundamentais para reforçar que, além do Estado, dos poderosos e dos ídolos, cada um de nós tem de dar o exemplo e ter responsabilidade diante do país e do outro. Uma delas, possivelmente a mais nobre, é a de criar os filhos para o bem.

A comparação entre Vitor e seus agressores nos faz refletir. O Brasil e o mundo serão muito melhores quando pais e escolas educarem as crianças para fazer a coisa certa sem se sentirem heróis, não para se arvorarem fortes e machos ao trucidar um ser humano -ou um animal- jogado na rua, no abandono e na dor.

Eliane Cantanhêde – FSP 12/02/2012
elianec@uol.com.br

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