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PINÓQUIO – BNDES – GEPETO – LULA

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Grilo Falante de Lula

“Nem Pinóquio teve uma ajuda tão generosa. Mas Pinóquio não tinha um BNDES, só um Gepeto.”

Guilherme Fiuza, gfiuza@edglobo.com.br
Época – 5/10/2015

INFINITA CAPACIDADE DE ERRAR

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Infinita capacidade de errar

Eliane Cantanhêde

11 Setembro 2015 | 05h 00

O rebaixamento da nota do Brasil pela agência Standard & Poor’s é daquelas coisas que todo mundo e todo o mundo já esperavam, mas, na hora que acontecem, viram um deus nos acuda. O mercado reage, o Planalto finge que foi surpreendido e a oposição alardeia que “o governo acabou”, como praticamente comemorou o senador Aécio Neves.

Entre esses polos, desenrola-se o jogo puramente político, em que os atores decoram o script que lhes convém e não o que combina melhor com os interesses do País. Acuada e impotente, a área econômica registra o golpe dentro dos gabinetes e tenta providenciar explicações e novas medidas diante dos microfones.

Numa reunião de emergência, a presidente Dilma Rousseff subestimou (mais uma vez) o tamanho da encrenca: “Não é catastrófico”. O ex-presidente Lula deu de ombros: “Não significa nada”. O ministro Joaquim Levy tirou o corpo fora: “Foi uma avaliação política”.

Do outro lado, as ações da renúncia e do impeachment dispararam na Bolsa política. O ex-ministro de FHC Luiz Carlos Mendonça de Barros prevê uma “pressão insuportável” dos empresários e a renúncia de Dilma. Os líderes do assanhadíssimo grupo suprapartidário pró-impeachment já contabilizavam ontem à tarde 280 dos 347 votos necessários na Câmara para afastar a presidente.

É ou não de tirar o fôlego? Dilma parece empurrar seu governo ladeira abaixo, esforçando-se ao máximo para errar: Orçamento de 2016 com rombo de bilhões de reais, o balão de ensaio da CPMF, a tentativa de subir o IPI, o IOF e a Cide via decreto, Levy admitindo mexer no Imposto de Renda. Com o controle da montanha-russa nas mãos, o PMDB avisa: sem corte de gastos antes, nada de aumento de imposto. Faz sentido…

Com políticos, empresários, estudantes, donas de casa, profissionais liberais e todo o resto tendo ataques de perplexidade ou de cólera, só faltava cutucar a área militar com vara curta. Como revelou a repórter Tânia Monteiro, não falta mais. Certamente guiado por algum gênio do mal, o Ministério da Defesa fez publicar no Diário Oficial da União uma portaria tirando poder dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica sobre o pessoal militar para transferi-lo ao ministro Jaques Wagner, do PT.

O, ou a, gênio do mal caprichou na dose. A iniciativa é atribuída à secretária executiva da Defesa, casada com o segundo homem do MST, o “exército do Stédile”. A publicação no DO foi três dias antes da maior festa militar do ano, a parada de Sete de Setembro. E a assinatura eletrônica foi do comandante da Marinha, na condição de ministro interino, mas ele diz que nem sequer foi consultado. Um desastre.

É assim que Dilma vai se isolando mais e mais, sem apoio popular e cercada por um PMDB guloso, um Lula assustado, um Congresso hostil e o setor privado se desgarrando. E, além do desgaste da imagem do Brasil no exterior, ainda cria encrenca desnecessária justamente com as Forças Armadas.

Trancada no Planalto com Aloizio Mercadante e Edinho Silva, a presidente parece sentada nos escombros da economia, da política, da cúpula histórica do PT – e com a Lava Jato a mil por hora. Sem querer cortar gastos e sem força política para aumentar a receita, vai ter de fazer as duas coisas e pode até enxugar o Minha Casa, Minha Vida, que é o que restou do maravilhoso mundo das campanhas e vem justificando as viagens dela pelo País.

Goste-se ou não do deputado Eduardo Cunha, é dele a definição perfeita e acabada do governo Dilma Rousseff: “É o Maquiavel às avessas”. Maquiavel ensinava que o mal se faz de uma vez e o bem, a conta-gotas. Dilma faz o mal a conta-gotas e o País continua aguardando para saber qual o bem que ela é capaz de fazer. Inclusive, ou principalmente, a ela própria.

Eliane Cantanhêde, O Estado de São Paulo, 11 de Setembro de 2015

 

 

Fábio Júnior, Chico Buarque, Fernanda Montenegro e o ódio ao povo brasileiro de fato!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

BLOG DO REINALDO AZEVEDO

08/09/2015

às 16:32

Vejam esta foto. É um flagrante do Brazilian Day.

FOTO CARTAZ NOVA YORK

A fala do ator, cantor e compositor Fábio Júnior, no Brazilian Day, no domingo, em Nova York, merece um tratamento que vai além do jocoso, como se tenta aqui e ali, à esquerda e à direita. É coisa mais séria, que guarda mais intimidade com os males do Brasil do que parece.

As elites intelectuais, ou as pessoas que em tanto se arvoram, odeiam o povo que há. Para elas, sempre será o vulgo, a brutalidade, a estupidez, a tolice. Na cabeça desses vigaristas — e insisto: pouco importa se direitistas ou esquerdistas; eles só são diferentes, no particular, na forma de silenciar a plebe rude —, a função da patuleia é carregar pedras para os monumentos. Os dois grupos teriam dado, se existissem então, um pé no traseiro de Shakespeare e suas banalidades humanas…

A forma contemporânea que as elites intelectuais de esquerdas têm de isolar o povo é tomar a estética como uma ética. O produto mais elaborado tecnicamente carregaria consigo necessariamente uma utopia, digamos, superior. O terreno da fruição, que é o da arte, passa a ser tomado como o das dissensões e disputas sociais. Os artistas considerados mais elaborados pela crítica serão necessariamente tomados como portadores das melhores respostas coletivas.

Fiquemos no caso em questão. Fábio Júnior é um artista popular. Já foi considerado, em programas de humor da TV, o preferido das domésticas — e havia naquilo certo riso de escárnio. Suas letras não costumam dialogar com uma certa tradição literária — não mais do que isso — buscada por Chico Buarque. O “eu lírico” das letras tem menos matizes, é mais direito, exibe menos relevos existenciais. Em suma: na música, Fábio Júnior não é Chico Buarque.

Cito Chico Buarque como o exemplo de uma espécie de coronelismo moral que toma conta das artes no Brasil. Alguns luminares são dotados de uma espécie de monopólio das boas intenções, pouco importa a porcaria que digam, em razão de suas escolhas políticas. Há três dias, tentando explicar o desastre da novela “Babilônia” — que só naufragou porque era ruim —, Fernanda Montenegro preferiu criticar o suposto conservadorismo do Brasil e produziu as seguintes pérolas:
“Babilônia, de Gilberto Braga, tem uma importância histórica muito grande. O beijo gay do qual tanto se falou não foi um beijo lambido, chupado, uma comendo a boca da outra. Foi a expressão de carinho de duas mulheres de 80 anos que há 40 estão juntas. Mulheres que representam uma elite. Não são ripongas. São bem-sucedidas e responsáveis. Habitam bem, comem bem. Um beijo carinhoso causou todo esse escândalo? Para mim, foi uma manta protetora, para distrair a atenção. Porque a novela foi histórica por outra coisa. Pela afirmação da negritude. Negros, mulatos, pardos, todos se afirmaram pela atitude. Ninguém era subserviente. Ninguém de uniforme, servil. O único de uniforme foi o motorista negro, amante da patroa, e assassinado no começo. Glorinha (Pires) ficou louca de desejo por um homem de outro estrato social. Essa foi a verdadeira revolução da novela. Nunca tantos negros se casaram com brancos, nunca houve tanta miscigenação. A negra que se forma advogada, o que tem sua barraquinha. Isso foi o que incomodou. O resto foi pretexto.”

Há aí uma tal soma de bobagens, de generalizações cretinas, de preconceitos enrustidos, que fica difícil saber por onde começar. Em primeiro lugar, hoje, o segundo maior contingente de cor de pele do Brasil é constituído de pardos, quase igual aos brancos, segundo dados do IBGE de 2010: 47,7% de brancos; 43,1 de pardos e 7,6% de negros. Antes de Gilberto Braga, o país misturou os brasileiros. A realidade brasileira, Fernanda, é diferente da americana, onde há apenas 13% de negros, já considerados neste grupo os mestiços. Nunca é tarde para estudar.

Sobra a sugestão de que as duas lésbicas deveriam ter sido aceitas porque, afinal, exibem os padrões da Zona Sul.

A observação, por sua vez, entra em choque com a bobagem racialista, jamais evocada pelos críticos da novela — e notem que foi o povo que se divorciou dela, justamente aquele formado por uma maioria de mestiços. Finalmente, noto que a atriz atribui certa, como posso chamar?, superioridade viril ao negro uniformizado que pega a patroa branca. Bem, nesse caso, já deixamos o terreno da sociologia para entrar no do fetiche.

Os esquerdistas e progressistas no geral podem ser os donos da pauta da imprensa, podem ser os donos dos meios influentes de divulgação de ideias, podem ser os donos “da arte”, mas não são os donos do povo. Independentemente do que digam ou divulguem, há uma realidade viva em construção, que consegue, de vez em quando, furar o muro da vergonha das placas de aço.

Ninguém precisa trocar os versos de Chico Buarque pelos de Fábio Júnior. Ninguém precisa trocar o preferido das patroas — sobretudo das que se banham no mar do Leblon — pelo preferido das domésticas. Nem Chico produz uma ética nem Fábio Júnior. São apenas dois compositores e cantores. Um saudado pelo crítica — às vezes, por maus motivos; outro, atacado — às vezes, também por maus motivos.

Chico Buarque, Caetano Veloso ou quantos outros vocês queiram incluir aí, inseridos à esquerda no debate cultural, não deveriam, por pudor, jamais misturar o prestígio que angariaram no terreno da estética para tentar nos vender uma ética — especialmente quando, no caso de Chico, ela se confunde com o apoio descarado a uma elite corrupta e truculenta que hoje toma conta do estado brasileiro. Caetano é um pouco mais matizado, mas se deixou fantasiar de black bloc num momento em que o país, sem querer parecer meramente retórica, tem é de tirar a máscara.

Fábio Júnior nunca ganhou um tostão com proselitismo político. Considerando o trabalho que faz, é possível que mais tenha dissabores do que ganhos com o discurso que fez no Brazilian Day. Não confundiu a sua opinião — muito sensata: ele atacou a roubalheira, certo? Não tentou justificá-la, como Chico Buarque — com os seus versos; não procurou o apoio irrestrito que lhe conferem os meios de comunicação para tentar vender uma tese política.

O Brasil, meus caros, mesmo quando se manifesta lá em Nova York, está mudando. Há uma gente nova na rua, para desespero dos que se queriam donos da opinião.

Vejam lá o cartaz que reproduz uma frase deste escriba. Os petistas adorariam que fosse exibido por um louro, de olhos azuis. Assim, eles, que se consideram donos dos negros, poderiam fazer seu proselitismo vigarista, me associando a uma elite branca que estaria contra o povo.

Mas não! Quem porta o cartaz é um negro. O negro em nome dos quais procuram falar Fernanda Montenegro e Chico Buarque. Para o delírio dos brancos de esquerda da Zona Sul.

Esse país, felizmente, está chegando ao fim.

Por Reinaldo Azevedo

PEDRA SOBRE PEDRA

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

 

Pedra sobre pedra

Dora Kramer

A pergunta é: se não há nada de errado na Petrobrás, qual a razão de tanto esforço para impedir que as investigações sobre os negócios da companhia, com destaque para a compra da refinaria de Pasadena, prosperem de maneira independente?

Nos últimos dias de março, há pouco mais de quatro meses, a presidente da empresa, Graça Foster, informou sobre a abertura de uma comissão de inquérito interna que em 45 dias iria apurar os fatos relativos à compra da refinaria.

“Não sobrará pedra sobre pedra”, avisou em entrevista ao jornal O Globo, sugerindo rigor e transparência nos procedimentos.

De lá para cá, no entanto, o que se viu não foi uma demolição de entraves aos esclarecimentos. Observa-se, antes, a construção, pedra sobre pedra, de barreiras de proteção em torno de diretores, ex-dirigentes e tudo o mais que diga respeito à Petrobrás.

Proteção à empresa? Não foi isso o que se fez permitindo-se o uso político dos preços dos combustíveis e a desvalorização de suas ações.

A blindagem se dá mediante a ação conjunta da estatal, do governo e de seus aliados no Congresso. Os diretores em princípio responsabilizados pelo Tribunal de Contas da União pelo prejuízo de US$ 792 milhões terão a cobertura das despesas com as multas, ressarcimentos e custos com advogados garantidos por seguro da própria Petrobrás.

Aqueles que foram apontados pela presidente da República como responsáveis por tê-la induzido e aos integrantes do Conselho de Administração ao erro de aprovar um negócio que viria a provocar o prejuízo da ordem apurada pelo TCU, hoje estão todos do mesmo lado.

Há uma CPI para investigar, mas nessa investigação tudo é previamente combinado entre investigados e investigadores. Francamente, não há outra maneira – a não ser que alguém explique de forma didática – de entender o que se passa: existe uma ação conjunta para impedir que se conheçam os meandros daquela negociação e a verdade sobre a responsabilidade de cada um.

O que se pretende, ao que parece, é pôr uma pedra, se não várias, sobre essa história. E a cada dia surge uma nova armação. A mais recente aparece em decorrência da revelação das cartas marcadas na CPI do Senado.

De um lado, o PT propõe criar duas outras comissões de inquérito para atingir a oposição. Não porque queira investigar de fato, mas porque pretende assim desviar o foco.

De outro, o Senado faz dois gestos tão teatrais quanto vazios. O presidente da CPI, Vital do Rêgo, encaminha ofício à Polícia Federal pedindo que investigue a própria CPI, sabendo que a PF não vai entrar numa fria dessa envergadura.

O presidente da Casa, Renan Calheiros, empenha todo seu notório capital de credibilidade para informar que considera “muito grave” a denúncia de acertos de perguntas e respostas e, diligente, anuncia a criação de uma comissão interna de sindicância.

Faz isso na maior seriedade, como se alguém pudesse confiar na independência da comissão formada por três servidores do Senado encarregados de uma investigação cujo resultado pode apontar o envolvimento de senadores governistas, de assessores da Casa Civil do Palácio do Planalto e de funcionários da Petrobrás.

Calheiros pede “pressa” na apuração e ensina que “CPI é uma instituição que não pode ser arranhada, um instrumento fundamental de fiscalização”. Seria de rir a desfaçatez, não fosse de lamentar o cinismo.

Dora Kramer – OESP  7/8/14

 

A TROPA PETISTA VAI AO ATAQUE

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

 

A tropa petista vai ao ataque

O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2014 | 02h 05

A presidente Dilma Rousseff, seu estafe e grão-petistas em geral têm reagido de forma agressiva e autoritária a todo tipo de reparo sobre o modo como o País vem sendo governado. Relatórios e análises que desmintam o cenário róseo descrito pela propaganda oficial logo são desqualificados pelas autoridades federais, como se os críticos – ainda que pertencentes a instituições internacionais importantes – fossem despreparados ou estivessem apenas movidos por má-fé.

É óbvio que os nervos afloram em época de campanha eleitoral, mas o que se espera da presidente é serenidade, pois ela ainda é a responsável pela administração do País. O que se tem notado, no entanto, é um crescente destempero.

O caso mais recente envolveu um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) que colocou o Brasil entre as cinco economias emergentes mais suscetíveis de sofrer os efeitos de outra crise financeira global. As demais seriam Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul. Segundo o relatório, esses países estariam vulneráveis em razão de inflação alta e rombo nas contas internas e externas, entre outros problemas. No caso específico do Brasil, a situação das contas externas é qualificada de “moderadamente frágil”.

A resposta do governo a essa análise correta dos fatos foi truculenta. “Não faz sentido a conclusão desse relatório”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Para ele, uma instituição respeitável não faria uma análise dessas e o estudo só pode ter sido elaborado “por uma equipe do FMI que eu não sei quem é”.

O ímpeto petista para desqualificar os críticos já chegou às raias do ridículo. Em fevereiro, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) propôs um voto de censura contra o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) depois que este incluiu o Brasil entre as economias vulneráveis. Segundo Gleisi, o relatório do Fed usou uma metodologia inadequada “para se chegar a conclusões confiáveis”. Na mesma sessão do Senado, outro petista, José Pimentel (CE), resumiu tudo ao dizer que o Fed é simplesmente incompetente.

Esse estilo arrogante é o mesmo que marcou a reação ao já famoso boletim do Santander, no qual o banco alertava os clientes que, se Dilma subir nas pesquisas, poderá haver “deterioração de nossos fundamentos macroeconômicos”.

Embora apenas retratasse o ambiente carregado do mercado e dos investidores graças aos sucessivos erros cometidos pelo governo, o texto foi tratado por indignados petistas como “terrorismo eleitoral”. Descontrolado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a exigir a demissão da analista que elaborou o boletim, recorrendo a palavrões para desqualificá-la.

Já a presidente Dilma, em lugar de apaziguar os ânimos, seguiu toada semelhante, ao dizer que vai tomar uma “atitude bastante clara em relação ao banco” – ameaça que ficou pairando no ar – e acusou o Santander de “interferência” no processo eleitoral. O desequilíbrio é evidente.

Outro caso recente em que o governo tratou de desmerecer informações que contradizem o alardeado sucesso de suas políticas ocorreu na divulgação, pela ONU, do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que envolve expectativa de vida, escolaridade e renda média. Segundo a organização, o Brasil aparece em 79.º lugar entre 187 países, tendo subido apenas uma posição em relação ao ano anterior. O ligeiro avanço foi encarado pelo governo como uma ofensa.

Nada menos que três ministros convocaram a imprensa para contestar os números usados pela ONU. Se os dados estivessem atualizados, disseram eles, o Brasil apareceria em 67.º lugar. Não é a primeira vez que o atual governo critica as contas do IDH – para as autoridades, se o índice não refletir os extraordinários avanços sociais patrocinados pelo lulopetismo, então ele só pode estar errado.

Diante desses casos, fica claro que o governo não pretende se limitar a rebater avaliações e números negativos. A tropa petista está de prontidão para ir além, desacreditando com agressividade todo aquele que representar o contraditório. Recordando Dilma: “Nós podemos fazer o diabo na hora da eleição”.

ESSES BABACAS DO METRÔ

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Esses babacas do metrô

23 de maio de 2014 | 3h 58

*Fernando Gabeira – O Estado de S.Paulo

Houve um tempo em que esperávamos a Lua entrar na sétima casa, Júpiter se alinhar com Marte e a paz reinar no planeta. Era a aurora da era de Aquarius. Aquarius, Aquarius. As mulheres arrancando os sutiãs, os homens com calça boca de sino, cavalos da polícia dançando, tudo porque a Lua tinha, finalmente, entrado na sétima casa.

Nossas esperanças hoje são mais prosaicas. Em vez de Júpiter se alinhar com Marte, contemplamos o alinhamento da Copa do Mundo com as eleições no Brasil. E os nervos estão mais sensíveis. Na cúpula, governo e Fifa se estranham. Para Jérôme Valcke, o contato com as autoridades brasileiras foi um inferno. Para Dilma Rousseff, Valcke e Joseph Blatter são um peso.

É o tipo de divórcio que não se resolve com as cartomantes que trazem de volta a pessoa amada em três dias. Eles se distanciam num mero movimento defensivo. Quem será o culpado se as coisas não derem certo?

Dilma, com a Copa das Copas, quer enfrentar a eleição das eleições e põe toda a sua esperança nos pés dos atletas. A Fifa não gostaria de entrar numa gelada no Brasil, mesmo porque o Qatar a espera com calor de 52 graus. Seriam dois fracassos seguidos, pois Blatter já admitiu que o Qatar foi um erro.

Essa conjunção histórica está levando a uma certa irritação da cúpula conosco, que não inventamos essa história. Blatter declarou que os brasileiros precisavam trabalhar mais porque as promessas de Lula não foram cumpridas. Nada mais equivocado do que essa visão colonial. Se Blatter caísse no Brasil e vivesse nossa vida cotidiana, constataria que trabalhamos muito mais que ele mesmo, um cartola internacional. Desde quando o objetivo do nosso trabalho é cumprir as promessas de Lula?

A tática de Lula é diferente da de Blatter. Lula não critica nossa insuficiência no trabalho, mas nossas aspirações de Primeiro Mundo. Ele, que vive espantando o complexo de vira-latas, apossando-se politicamente de uma frase de Nelson Rodrigues, nos convida agora a reviver o espírito que tanto condena: “Querer vir de metrô ao estádio é uma babaquice. Viremos a pé, de jumento…”. Para Blatter, precisamos trabalhar mais; para Lula, desejar menos. Só assim nos transfiguramos na plateia perfeita para o espetáculo milionário.

Lula começou sua carreira falando em aspirações dos mais pobres, hoje prega o conformismo. Não é por acaso que o PT faz anúncios inspirados no medo de o adversário vencer as eleições. Não há mais esperança, apenas um apego desesperado aos carguinhos, à estrutura do Estado, aos grandes negócios.

No passado exibi um filme em que Lula e Sérgio Cabral dialogam com um garoto do Complexo da Maré. Eles entram em discussão, Cabral ofende o jovem e Lula diz ao garoto que gostava de jogar tênis: “Tênis é um esporte de burguês”. Na cabeça de Lula, o menino tinha de se dedicar ao futebol. Outras modalidades seriam reservadas aos ricos. Se pudesse livrar-se de seus aspones e andar um pouco até a Baixada Fluminense, veria um campo de golfe em Japeri onde atuam dezenas de garotos pobres da região. Dali saem alguns dos melhores jogadores de golfe do Brasil.

Lá por cima, pela cúpula, muito nervosismo, uma certa impaciência com um povo que não se ajusta ao espetáculo. Estão mais ansiosos que os próprios jogadores para que o juiz dê o apito inicial. Nesse momento, acreditam, o Brasil cai num clima de festa. Com a vitória da seleção o Brasil entraria num alto-astral e os carguinhos, os grandes negócios, tudo ficaria como antes.

Li nos jornais algumas alusões à Copa de 70, a que assisti na Argélia. De fato, o PT vai se agarrar à seleção como o governo Médici o fez naquela época.

Mas já se passaram tantos anos, o Brasil mudou tanto, e o alinhamento das eleições com a Copa, organizada pelo País, tudo isso traz novidades que a experiência de 1970 não abarca.

Estamos entrando num momento inédito. Dilma é vaiada em quase todo lugar por onde passa. Lula está visivelmente ressentido com o povo, que não o celebra pela realização da Copa; que é babaca a ponto de desejar ir de metrô ao estádio.

Não importa qual deles venha. “Que vengan los toros”, como dizem os espanhóis. Não importa quantos gols nosso ataque faça – e espero que sejam muitos -, a glória do futebol não obscurece mais nossas misérias políticas e sociais. Se os idealizadores da Copa no Brasil fizessem uma rápida pesquisa, veriam que o sonho de projetar a imagem de um país pujante e pacífico está ardendo nas fogueiras das ruas, na violência das torcidas, no caos cotidiano nas metrópoles, nos relatos sobre a sujeira da Baía de Guanabara.

O governo do PT e aliados não poderá esconder-se atrás do futebol, porque eles já foram descobertos antes de a Copa começar. A Copa do Mundo não sufoca as denúncias de corrupção porque a própria Copa está imersa nela. A Fifa, com Jérôme Valcke sendo acusado de venda irregular de jogadores, não ajuda. Até o técnico Felipão caiu nas redes do fisco português.

O sonho de uma plateia ideal para a Copa, milhares de pessoas com bandeirinhas, de um eleitorado ideal que vota sempre nos mesmos picaretas, de torcedores ideais que vão a pé ou de jumento para estádios bilionários, esse sonho entra em jogo também. Assim como aquele de projetar a imagem positiva do Brasil, o sonho de uma plateia ideal para a Copa foi por terra. Nem todos cantam abraçados diante das câmeras.

Começou um jogo delicado em que a Copa do Mundo é apenas uma etapa. Valcke vai viver o inferno nos 52 graus do Qatar e Dilma enfrentará a eleição das eleições, a qual precisa vencer, mas não para de cair.

A Lua entrou na sétima casa e não veio o paraíso. As eleições se alinham com a Copa, como Júpiter e Marte, e o Brasil, num desses momentos de verdade decisivos para sair dessa maré. Se estão nervosos agora, imagino quando as coisas esquentarem.

Os babacas que querem ir ao estádio do metrô podem querer também um governo limpo, um combate real à corrupção, serviços públicos que funcionem.

Babacas, felizmente, são imprevisíveis.

* FERNANDO GABEIRA

 

 

POPULISMO E VIOLÊNCIA

segunda-feira, 12 de maio de 2014

 

 

Populismo e violência

11 de maio de 2014 | 2h 21

O Estado de S.Paulo

As duas principais cidades do País, São Paulo e Rio de Janeiro, foram sacudidas na quinta-feira por manifestações públicas que em muitos pontos descambaram para a violência. Na capital paulista, cinco movimentos – três deles simultâneos – levaram às ruas militantes sem-teto que invadiram e picharam as sedes das três maiores empreiteiras responsáveis pelas obras da Copa do Mundo. No Rio, motoristas e cobradores em greve depredaram 467 ônibus – isso mesmo, quase meio milhar. O grave não são esses lamentáveis episódios em si. Gravíssimo é o fato de que eles estão se tornando banais, corriqueiros, cada vez mais descontrolados, revelando a cada dia com maior nitidez um cenário de convulsão social que ninguém sabe onde e como vai terminar.

Manifestações populares pacíficas, movimentos reivindicatórios ordeiros, atos públicos de protesto realizados sem violência são importantes para o aperfeiçoamento e fortalecimento das instituições democráticas.

Mas, quando se olha para o que está acontecendo em todo o País, o que se vê é muito diferente disso. Há fatores perturbadores que precisam ser levados em conta na avaliação dessas manifestações e da posição que o poder público tem assumido diante delas.

Um desses fatores é, obviamente, o sistemático desrespeito à lei e o desprezo pela segurança pública. Ninguém tem o direito, por mais justa que seja a causa que defende, de violar direitos alheios e muito menos de colocar em risco a integridade física de pessoas e do patrimônio público e privado, promovendo depredações e invadindo propriedades. São atos que a lei proíbe e pune e que o bom senso repele por serem contrários à boa convivência democrática.

Por outro lado, a intensidade com que avultam essas manifestações, abrangendo um amplo universo de agendas específicas – lamentavelmente pontuadas por atos de violência -, sugere que a sociedade brasileira está insatisfeita, inconformada, revoltada.

Mas este não é o país maravilhoso que em dez anos promoveu o milagre do resgate social dos desvalidos e se projetou triunfante na cena antes só frequentada pelas grandes potências mundiais? Não é o país em que o povo pode contar com as promessas de que tudo vai ficar melhor ainda, pois há infinitas bondades a serem sacadas da cornucópia dos poderosos?

É claro que o governo – que para onde olhe só enxerga urnas eleitorais – tem tudo a ver com o sentimento difuso de insatisfação que permeia a sociedade. Pois predomina o sentimento, nem sempre expresso com clareza, de que as conquistas das últimas décadas, obtidas com grandes sacrifícios – desde o controle da inflação e a valorização da moeda até uma melhor distribuição de renda -, correm sério risco diante da incompetência administrativa de um governo unicamente preocupado em se manter no poder.

A tudo isso se somam os temores gerados pela cúmplice despreocupação do governo com o gangsterismo que floresce em certos movimentos ditos sociais – aqueles que lideram a violência e o esbulho.

Afinal, que outra interpretação dar ao fato de a presidente Dilma Rousseff abrir espaço em sua agenda para dar atenção a manifestantes que, ao lado do local do encontro, estão cometendo o crime de invadir uma propriedade privada? Atitudes de mero oportunismo eleitoral como essa são, no mínimo, antipedagógicas do ponto de vista do exercício da cidadania. Afinal, se a chefe do governo é tolerante com invasores de Itaquera, por que não o será também com outros crimes?

Aos invasores que saíram do encontro com a presidente embalados pela promessa de que tudo será feito para incluí-los no Minha Casa, Minha Vida, cabe a piedosa advertência de que, se tudo der certo, correrão o risco de se tornarem eles próprios vítimas do crime que hoje praticam, pois até mesmo no programa habitacional do governo as invasões são cada vez mais frequentes e toleradas.

O fato é que as incertezas que hoje assombram o País têm também sua origem nas omissões e desmandos de um governo populista que há mais de dez anos entrega muito menos do que promete. E promove, com os hábitos perniciosos cultivados por setores do PT, a lassidão moral que ameaça as instituições.

 

 

“POR ENQUANTO, O DISCURSO DO GOVERNO É 80% MENTIRA E 20% MALANDRAGEM.”

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Fernando Gabeira

“Por enquanto, o discurso do governo é 80% mentira e 20% malandragem”. A volta do retorno, meu artigo de hoje, no Estadão.

Publicado em 09.05.2014

“Cuidado com a volta do retorno.”

Quem me dizia sempre isso era Marinho Celestino, um cabeleireiro capixaba que estudou cinema em Paris e morreu no Brasil. Não sei se queria expressar com isso a circularidade do tempo ou se usava a expressão apenas para advertir os perigos de uma recaída. O movimento “Volta, Lula” sempre me lembra a expressão de Marinho Celestino: a volta do retorno, uma espécie de bumerangue.

Durante um tempo, ele se comportou apenas como um ex-presidente. Achei que merecia o habeas língua que sempre conferimos àqueles que já cumpriram sua tarefa. Clarice Lispector, num belo conto chamado Feliz Aniversário, conta a história de uma festa para a mulher que fazia 89 anos e de quem todos queriam arrancar uma palavra. A velha permaneceu calada, apesar de muitas provocações, até que, no final da festa, resolveu falar só isto: “Não sou surda!”.

Para mim, Lula ainda é um jovem. Desenvolvi uma tolerância a suas frases e, em certos momentos, até me diverti com elas. Era só um ex-presidente, com direito a parar de fazer sentido.

Agora, que querem lançá-lo de novo à Presidência, é preciso ter cuidado com a volta do retorno. Não me preocupa tanto que tenha dito que o julgamento do mensalão foi 80% político e 20% técnico. Lula aprendeu, ao longo destes anos, a usar os números para tornar a mentira convincente. Se o apertarmos num debate, ele vai conceder: “Está bem, então 79% político, 21% técnico”. Ele sabe que números quebrados convencem ainda mais que os redondos. O que me preocupou mais nessa entrevista aos portugueses foi ele ter encarnado o espírito de salvador, um arquétipo da nossa cultura luso-brasileira, um Dom Sebastião.

Ele disse que, apesar do que noticiavam os jornais, TV e oposição, o povo sempre olharia nos seus olhos e acreditaria na sua verdade. Isso implica uma visão pobre da democracia e, sobretudo, do povo. Como se as pessoas fossem completamente blindadas diante do debate nacional, como se não fossem curiosas, não formassem opinião por meio da troca de ideias, como se não estivessem constantemente reavaliando suas crenças com novos dados.

Nessa frase de Lula, o povo só se acende com o seu olhar hipnótico e é nele que procura a verdade, não nos fatos e nas evidências que se desdobram.

Cuidado com a volta do retorno. A realidade mostra que as pessoas avançaram, que valorizam melhorias materiais, mas pedem também mais do que isso. Seria interessante para o PT e para o próprio Lula darem uma volta pelas ruas do Brasil e tentar a fórmula olho no olho. No mínimo, vão se desapontar.

Lula não conseguiu, com olhar magnético, convencer o povo brasileiro de que a Copa foi uma decisão acertada num país com tantas dificuldades. Tanto ele quanto Gilberto Carvalho ficam perplexos diante das críticas. Como é possível não celebrar a Copa no Brasil?

Neste caso, a fantasia de uma identificação mítica com o povo vai para o espaço. Como restaurá-la? Com olho no olho?

O olhar número cinco falhou. A única saída é partir para outros truques, como, por exemplo, fazer com que os copos se movam sozinhos nas mesas, como naquelas sessões espíritas no princípio do século 20.

Na entrevista em Portugal, Lula procurou explicar também por que o povo olhava no seu olho e o apoiava. Mencionou, mais uma vez, a história da mãe que o aconselhou a andar sempre de cabeça erguida. Um conselho de mãe e o olho no olho são os talismãs que o protegem de todas as acusações, que lhe dão força, inclusive, para proteger em seu governo grandes e pequenos bandidos da política nacional. Não e à toa que alguns ratos começam a abandonar o navio da candidatura Dilma. Eles anseiam também por migalhas desse poder de Lula, querem se esconder embaixo do manto protetor.

E Dilma, ou o fantasma dela, apareceu na televisão. Gostei da maquilagem, do tom da pele, embora para muitos ela estivesse um pouco pálida. Os profissionais trabalharam bem no rosto, no penteado e mesmo nas ideias do texto. Você querem mudança? Nós somos a mudança.

Está chegando um tempo em que o abuso das palavras perde sua elasticidade. Um tempo em que a onipotência de um suposto magnetismo tem de descer ao mundo dos debates, do choque de ideias, da avaliação permanente dos rumos do País. É o ocaso da magia. Da cartola, saem apenas os velhos e combalidos coelhos: aumento da cesta básica, modesta redução no Imposto de Renda.

O naufrágio se define com a perda do horizonte. Mesmo o famoso mercado parece esperar a derrota de Dilma. Quando cai nas pesquisas, a Bolsa sobe. Mas nem sempre o mercado tem razão diante da política. Senão, substituiríamos o debate parlamentar pelo grito dos corretores na Bolsa. Realizar uma política social generosa, muitas vezes, bate de frente com o mercado. Só é possível levá-la adiante, de fato, num quadro econômico de crescimento sustentável. E parece existir no mercado a compreensão de que a atual política econômica está fracassando, de que Dilma foi má administradora em campos vitais, como a energia, e incompetente para deter a degradação da Petrobrás.

Não sei como Dilma e Lula vão se apresentar na campanha. Ele vai precisar de uma lente de contatos para mudar a cor dos olhos, em caso de necessidade. Dilma não poderá repetir apenas o que escrevem os marqueteiros. Ela apenas registrou que os ratos abandonavam o barco, mas não se perguntou em nenhum momento por que o barco começa a afundar.

No debate, os dois, cada um com seu estilo, vão ter de explicar o que fizeram do Brasil, que se vê agora sugado pela corrupção, gastando fortunas com as obras de uma Copa trazida pela visão megalomaníaca de Lula. Na África do Sul, ele até convidou atletas estrangeiros para se mudarem para o Brasil porque haveria tanta competição esportiva que nossas equipes não seriam capazes de disputar todas.

Nada como esperar a campanha presidencial de 2014. Por enquanto, o discurso do governo é 80% mentira e 20% malandragem.

Fernando Gabeira

Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 09/05/2014

 

NADA DE TV E INTERNET NO QUARTO?

domingo, 27 de abril de 2014

 

Nada de TV e internet no quarto?

Jairo Bouer

Televisão ou internet no quarto é tudo o que seu filho quer na vida, mas novas evidências têm demonstrado que essa pode ser uma péssima ideia para a saúde dele. Pesquisa da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, publicada no jornal inglês Daily Mail da semana passada, mostra que, para cada hora de televisão a que as crianças assistem por dia, elas perdem sete minutos de sono.

O estudo avaliou 1.800 crianças entre 6 meses e 8 anos. Quem tinha TV no quarto dormia menos. Os garotos parecem ser ainda mais sensíveis à presença da tecnologia perto da cama. A avaliação faz parte de um projeto (Project Viva), que acompanhou crianças de seu nascimento até 8 anos de idade para tentar determinar quais os fatores que podem influenciar seu desenvolvimento.

O trabalho foi um dos poucos que observaram o comportamento das crianças por um longo período de tempo, e o resultado mostra que tanto assistir a muita TV como ter uma televisão no quarto podem diminuir o tempo de sono em uma fase da vida em que dormir pelo menos oito horas é fundamental para a saúde. Algumas pesquisas recentes relacionam, por exemplo, menos horas de sono com um maior risco de obesidade em crianças e jovens.

Além disso, dormir menos pode piorar a concentração, a atenção, a memória e o rendimento em um momento em que as células nervosas estão se desenvolvendo em um ritmo acelerado e vão determinar nosso funcionamento intelectual e psíquico.

Não foi à toa que, há duas semanas, por exemplo, em Manchester, no Reino Unido, na Conferência Anual da Associação de Professores, noticiada pelo jornal Evening Standard, foi discutido o impacto que o uso dos tablets, celulares inteligentes e computadores, durante a noite, estão tendo no desempenho dos alunos em sala de aula.

Professores estão percebendo, cada vez mais, jovens sonolentos, irritados e com dificuldade de concentração após passarem noites em claro ou com poucas horas de sono por causa do uso excessivo de tecnologia, principalmente quando eles estão sozinhos, o que acontece com frequência em seus quartos à noite.

Redes sociais, serviços de troca instantânea de mensagens e jogos online seriam os principais “vilões” dessa história. Mesmo proibidos pelos pais de acessar a internet à noite, os jovens conseguem facilmente driblar esse controle graças, principalmente, aos dispositivos móveis e portáteis, como os smartphones.

Alguns desses professores, preocupados com essa queda de rendimento dos alunos na escola, e com medo do risco de dependência dos jovens à internet, sugeriram que os pais deveriam desligar o Wi-Fi de suas casas à noite, o que dificultaria o acesso das crianças.

Do ponto de vista da saúde, uma série de estudos tem demonstrado que tanto a radiação emitida pelas telas de celular e computador como a excitação psíquica provocada pelos jogos e papos online podem dificultar que o jovem “pegue” no sono. Além disso, há um problema crescente em desligar esses aplicativos no meio de uma conversa com amigos, de uma paquera ou de uma etapa eletrizante de um game, porque no dia seguinte existe trabalho ou escola.

Na semana passada, também, outra pesquisa mostrou mais um possível impacto negativo da internet, dessa vez principalmente em garotas. Realizado em universidades americanas e inglesas, o estudo sugeriu que as meninas que passam mais tempo nas redes sociais tenderiam a se comparar mais com amigas e conhecidas e teriam um risco maior de terem uma percepção negativa do seu corpo, da sua imagem e da sua aparência.

Talvez a principal conclusão de todos esses trabalhos seja que o uso das tecnologias precisa ser redimensionado, com urgência, na vida de muitos jovens.

Dr. Jairo Bouer – O Estado de São Paulo, 27 de Abril de 2014

 

ANÁLISE: JOSÉ AURÉLIO RAMALHO

sábado, 14 de dezembro de 2013

ANÁLISE: JOSÉ AURÉLIO RAMALHO

Perguntas sem respostas

Todas as causas têm sua legitimidade aos olhos de quem as defende, porém, quando afeta a sociedade, esta deve ser avaliada pela coerência, e não pela preferência, pelo impacto e não pela contingência.

Em abril de 2009, comemoramos o avanço da segurança viária no Brasil igualando-nos a países de primeiro mundo no quesito segurança, com a obrigatoriedade da inclusão de airbag e ABS em todos os carros fabricados no País.

As resoluções são datadas de 2007 e 2009 e, por isso, é difícil compreender qualquer argumento para que sejam adiadas, justo no último mês de implantação. Há perguntas sem respostas nessa questão e, se respondidas com coerência, e não preferência, auxiliarão na tomada de tão importante de liberação.

Por que as montadoras, com previsão de demissões, não fizeram um planejamento, cientes de que os veículos sairiam de produção? Por que, após quase cinco anos, ou 1.825 dias, o assunto surge a menos de 20 dias de a lei atingir 100% de seus propósitos? Estamos falando do adiamento de mais dois anos na oferta de segurança a milhares de trabalhadores e suas famílias, contra a perda de emprego de quatro mil funcionários? Não seria inócuo tamanho adiamento, se considerarmos o fato de que outras da cadeia de autopeças de airbag e ABS no Brasil investiram em mão de obra?

O Estado de São Paulo, 14 de dezembro de 2013

José Aurélio Ramalho – Diretor-Presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária

PELA ENTRADA SOCIAL

domingo, 1 de dezembro de 2013

Pela entrada social

Parentes dos presos do presídio da Papuda, na maioria mulheres, protestam contra os privilégios da gente diferençada que ali recém-chegou em decorrência das sentenças do STF no processo do mensalão. Os visitantes dos novos presidiários estão imunes às demoras e humilhações a que são regularmente submetidos os visitantes dos outros presos, especialmente mães, irmãs, esposas ou companheiras. Todas tratadas como suspeitas, revistadas, examinadas, fiscalizadas, além do martírio da longa espera, que começa de madrugada nas filas intermináveis.

Na facção da nova humanidade do presídio, alguns presos ainda retêm o direito de ser tratados por “vossa excelência”. Romarias de outras tantas excelências, que chegam em carros oficiais e são recebidas no ambiente diferençado da direção da cadeia, com direito a cafezinho e água gelada, despertam curiosidade e ressentimento dos comuns. Os visitantes dos presos diferençados não são suspeitos. Não passam por revista. É que, ao contrário da sina das mães da porta da Papuda, eles são os pais da pátria. Era o nome que recebiam os patriarcas de antanho, senhores de cabedais, de gente e de poder, os intocáveis e insubmissos.

É o que faz daquilo um laboratório para estudos sociológicos sobre diferenciação social. Se alguém quiser saber o que é pós-modernidade e só ficar de olho nos portões da Papuda. Poderá observar ao vivo e em cores como no Brasil a cidadania não liquefaz as graves diferenças sociais que nos atormentam desde sempre, não derrete as barras de ferro das separações sociais, embora todos sejam legalmente iguais.

A nova realidade social e política do presídio gera a distinção social entre a “gente diferençada” e a “gentalha”, separadas pelo fio da navalha do direito: os que são mais e têm mais do que o direito concede e os que são de somenos e têm menos do que o direito pode conceder. Lembrando frase famosa de ministro do trabalho oriundo das hostes sindicais, “bicho também é gente”, pode-se dizer que “gente também é gente”.

Coisa de que nos esquecemos com facilidade, ainda referidos que somos, em nossos relacionamentos, às estruturas sociais profundas, estamentais, das desigualdades radicais, que conformaram a sociedade brasileira desde os tempos da conquista. Inicialmente, em relação aos índios descidos do sertão e submetidos ao cativeiro, houve durante largo tempo sérias dúvidas, entre a gente de prol, como se dizia, se tinham alma ou não. Ou seja, se eram gente ou não ou se eram meros símios da mata. E isso não está tão longe assim. Não faz mais que 20 anos, num povoado à beira do Rio Araguaia, interpelei um menino mestiço que insultava um índio carajá, que passava cabisbaixo. Perguntei-lhe por que fazia aquilo, se o índio era gente como nós. “É não!” – respondeu-me. “Ele é gentio e eu sou cristão.” Vemos aí, claramente, qual foi a argamassa que cimentou os alicerces do lado esdrúxulo da sociedade brasileira.

Durante séculos, os artesãos foram considerados de qualidade social inferior porque trabalhavam com as mãos. Não faziam parte do rol dos homens bons, a chamada gente de qualidade, para que pudessem ocupar funções nas câmaras municipais. O ócio dignificava, não o trabalho, que minimizava. Com a República, todos se tornaram iguais perante a lei, mas alguns se mantiveram ou se tornaram mais iguais, para lembrar uma frase inspiradora de George Orwell em A Revolução dos Bichos. Além do mais, tudo tem que mudar para que tudo permaneça como estava, é o que nos lembra Lampedusa em O Leopardo.

Temos por aí outros sinais dessas persistências. Quem for preso, por algum motivo, enquanto não for julgado e condenado, se tiver curso superior, terá direito a prisão especial. Nada de ficar naquela montoeira de gente que se apinha nas delegacias de polícia, com menos ar por metro quadrado que o necessário. Se alguém respirar mais fundo, pode matar os vizinhos de cela.

Os diferençados, aliás, vem sendo tratados como heróis nacionais. Inocentados no berro, têm a contrapartida dos acólitos que se vingam satanizando a Justiça, em particular satanizando o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF. Ora, não foi Joaquim Barbosa o autor dos fatos que, pela primeira vez na história do Brasil, resultaram na diferenciação social da população carcerária do agora mais notório presídio brasileiro.

A sociedade de classes, centro das reflexões de ilustre petista e sociólogo mais ilustre ainda, o professor Florestan Fernandes, finalmente chega à prisão. O Brasil dividido e hierárquico também está lá. Não é mais prisão de uma classe só. O protesto do povão mostra que não entendeu o caso do mensalão, que o Brasil dos privilégios mudou sem mudar. O petista gaúcho Olívio Dutra usa a ótima expressão “sucessão de malfeitos” para dar nome aos fatos originários do processo do mensalão. O que quer dizer, coisa de imaturos, de gente que brinca com o que não deveria brincar. Diferentes dos presos das mães da porta.

José de Souza Martins, O Estado de São Paulo, 1 de dezembro 2013


 

O FIM DAS ESPERTEZAS DO IPTU

domingo, 20 de outubro de 2013

O Estado de S.Paulo

Não demoraram mais do que duas semanas para o prefeito Fernando Haddad ser obrigado a mudar a sua proposta de aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), com relação à qual, no começo, se mostrou intransigente. Esse recuo o deixa numa posição desconfortável – para dizer o mínimo -, mas disso ele não pode se queixar, porque seu projeto continha erros graves, alguns facilmente identificáveis e outros matreiramente escondidos. E são principalmente esses que estão pondo a perder a esperta tentativa do prefeito de, numa só tacada, obter aumento de 24% desse tributo.

A falha que logo saltou aos olhos – pois Haddad a deixou clara, sem se dar conta da enormidade que propunha – era a intenção de usar o aumento do IPTU, por meio da atualização da Planta Genérica de Valores (PGV), para conseguir recursos destinados a cobrir, em parte, o subsídio ao serviço de ônibus, que foi parar nas alturas (R$ 1,6 bilhão) com o congelamento da tarifa. Estava viciando dessa forma o reajuste da PGV, que tem de ser tratado de forma técnica.

Pior do que isso, porque feita às escondidas, foi a tentativa de passar a perna nos contribuintes, submetendo seus imóveis a uma tributação que na realidade era bem maior do que a proclamada pelo prefeito. Descobriu-se que o aumento anunciado, já muito elevado – de até 30% para os imóveis residenciais e 45% para os comerciais -, continha uma armadilha. O reajuste acumulado poderia chegar, nos próximos três anos, a, respectivamente, 116% e 204%. Tentou-se deixar na sombra esses valores, porque eles são exorbitantes.

Descoberta a manobra, o assessor técnico da Secretaria Municipal das Finanças, Douglas Amato, não teve como negar o tamanho descomunal do aumento, durante audiência na Comissão de Finanças da Câmara Municipal. Ele ainda tentou justificar a proposta, argumentando que a valorização imobiliária na capital teria sido bem maior do que 100% nos últimos três anos. Mas, como não conseguiu convencer nem mesmo os vereadores da bancada situacionista, o governo se viu forçado a rever o aumento.

A elevação máxima para o IPTU dos imóveis residenciais deve cair de 30% para 20% e a dos comerciais, de 45% para 35%. Como se descobriu também que os aposentados estavam sendo prejudicados, vai se aproveitar a ocasião para corrigir mais esse erro. A faixa de isenção para aqueles que são donos de um único imóvel deve subir de três (R$ 2.034) para cinco salários mínimos (R$ 3.420).

Infelizmente, tudo indica que o recuo do prefeito se deveu a razões eleitorais e não ao reconhecimento de que errou. O que significa que, em condições políticas mais favoráveis, poderá não resistir à tentação de cometer erro igual ou semelhante. Os vereadores governistas alegaram que a aprovação do aumento, de acordo com a proposta original, teria repercussão fortemente negativa na opinião pública em 2014, um ano eleitoral, quando ele entraria em vigor. Eles temem que o aumento do IPTU seja explorado pela oposição, que para isso – está se vendo – teria bons argumentos.

Além da esperteza do aumento escondido, é preciso considerar outro aspecto preocupante desse caso. Ele é mais uma demonstração de que o governo Haddad toma medidas importantes com inspiração classista. O projeto do IPTU, que tudo indica não será alterado nesse ponto, divide a cidade em três zonas fiscais, com populações de diferentes níveis de renda, para concentrar os aumentos nos bairros ditos nobres. Fez isso com tanta sofreguidão que acabou por prejudicar a classe média e aposentados que vivem em bairros centrais.

A insistência de Haddad em dizer que tudo deve ser feito para favorecer o transporte coletivo, em detrimento do individual – como se os milhões que o utilizam coubessem nos ônibus -, é outro exemplo desse viés, que tudo trata como se fosse luta de classes. Uma coisa é desenvolver políticas públicas para ajudar a população menos favorecida, com o que todo mundo está de acordo. Outra é querer colocar classes sociais em confronto.

O Estado de São Paulo, 20 de outubro de 2013



PAULO COELHO CANCELA PRESENÇA NA FEIRA DE FRANKFURT

sábado, 5 de outubro de 2013

 

Escritor critica MinC pela ausência de outros autores

Ubiratan Brasil – O Estado de S.Paulo, 04 de outubro de 2013

Em uma grande entrevista a ser publicada amanhã no jornal semanal alemão Welt am Sonntag, Paulo Coelho ativou sua metralhadora verbal e atirou petardos para alvos diversos, não poupando o governo tampouco os críticos literários. Coelho, que recusou estar em Frankfurt durante a Feira do Livro, não poupou, por exemplo, a comitiva de 70 escritores brasileiros convidados pelo Ministério da Cultura para representar o País na Feira de Frankfurt: “Duvido que sejam todos escritores. Dos 70 convidados, só conheço 20, dos outros 50 nunca ouvi falar. Presumivelmente, são amigos de amigos de amigos. Nepotismo. O que mais me aborrece: existe uma nova e excitante cena literária no Brasil. Mas muitos destes jovens autores não estão na lista”.

Paulo Coelho tem 8,5 milhões de seguidores no Twitter - Paul Macleod/ Divulgação
Paul Macleod/ Divulgação
Paulo Coelho tem 8,5 milhões de seguidores no Twitter

 

Ele não aceitou a ausência de Eduardo Sphor, Carolina Munhoz, Thalita Rebouças, André Vianco, Felipe Neto e Raphael Draccon. “Fiz o melhor que pude para conseguir que eles viessem. Sem sucesso. Então, por protesto, decidi não ir a Frankfurt.”

Paulo Coelho aponta também seu desgosto com os governantes. “Para mim, o atual governo brasileiro é um desastre. Por onde passo, as pessoas sempre me perguntam o que há de errado com o meu país. O governo fez grandes promessas e não as cumpriu”, afirma ele, também crítico com a inclusão da moda entre os beneficiários da Lei Rouanet (“Um campo que não precisa absolutamente de patrocínio”), além de revelar um profundo ceticismo em relação aos frutos conquistados com as manifestações de rua: “Dado o caráter massivo e nacional dos protestos, acho que o governo está reagindo de maneira errada de novo: em vez de afirmar claramente o que está errado e o que precisa ser feito, permanece num estado de medo, fazendo uma vez mais promessas que não conseguirá cumprir”.

Com 8,5 milhões de seguidores no Twitter e 12 milhões de amigos no Facebook, o autor brinda as redes sociais: “Agora estou conectado com meus leitores de uma maneira que não era possível antes”.

BISCOITO FINO PREJUDICA BARRIGA TANQUINHO

sábado, 10 de agosto de 2013

MARCELO RUBENS PAIVA – O Estado de S.Paulo, 10/08/2013

Dá um nó na cabeça quando fecha uma publicação que assinamos. Nos sentimos como o cara que tenta comprar hoje uma fita cassete, VHS ou para máquina de escrever. Nos sentimos tão inúteis… Estamos por fora, um pária social. Não sacamos nada. O que queremos, já era. Sem contar que desprezam nosso dinheiro. Somos os zumbis de um mercado editorial sempre em movimento. Andamos como mortos-vivos, balançando os braços, em farrapos, enquanto um energético meio publicitário faz as contas, debate se valemos a pena ou se aquele outro nicho é mais dinâmico e lucrativo.

 

Quem viu o Jornal do Brasil encolher até virar site, o Pasquim, Opinião, Movimento, Em Tempo, Afinal, Jornal da República desaparecerem, a revista Bizz, ícone dos anos 1980, nascer, morrer, renascer, falecer, ressuscitar e sumir em definitivo em 2007, sentiu o baque. Agora, a Bravo foi cremada.

O que me deixou inconformado, pois era das poucas revistas que eu assinava, lia de cabo a rabo, me sentia compelido a ir a exposições, peças, shows ou eventos indicados. Das poucas revistas em que escritores barra jornalistas colaboravam sem discutir o cachê. E ainda se sentiam honrados pelo convite.

Na reestruturação da Editora Abril, ficaram as revistas Boa Forma, Men’s Health, Women’s Health, Estilo, Manequim, Máxima, Runners, Sou Mais Eu, Saúde, Vida Simples, Viva Mais, Você S/A.

Você S/A que curte saúde, tem estilo, se sente a máxima, é mais você, gosta de estar em boa forma, com o manequim enxuto, no capricho, porque quer viver mais, não ficou brava com a extinção da Bravo. Talvez nem tenha notado.

Biscoito faz mal, fino ou não. Vivemos o fim do biscoito fino. O fechamento da Bravo é a prova de que alimentar o cérebro não está mais entre as prioridades. A reestruturação da maior editora dá sinais de que o brasileiro quer viver mais sem se importar em saber menos. Se então a prioridade é a saúde, a vaidade em lua de mel com a longevidade, será que saber menos prolonga a vida? Ou será que o conhecimento até então considerado engrandecedor, como livros, teatro, exposições e filmes, são dispensáveis quando a sobrevida necessita de outro tipo de conhecimento, entrar em forma, ter saúde e controle do colesterol total e frações, glicemia, ferritina, albumina, TSH, T4L, creatina, ureia?

Nós, assinantes das revistas extintas, recebemos nesta semana pelo correio o COMUNICADO IMPORTANTE, assim mesmo, em caixa alta. “De tempos em tempos, fazemos uma análise em nosso portfólio editorial e, em algumas vezes, essa análise nos obriga a um redirecionamento”, explicou o diretor de assinaturas da Abril, Fernando Costa. “Foi uma decisão difícil, acredite, sobretudo porque ela envolve você.” Acredito. A Bravo era a menina dos olhos do publisher Roberto Civita, morto em maio.

O comunicado me deu uma linha direta 0800 para tratar do meu caso. Eu poderia ter de volta o dinheiro correspondente às dez edições da revista ou migrar para outra. A atendente foi tão simpática, rápida e bem-humorada, que tive a vontade de passar a tarde pedindo conselhos para outros problemas da minha vida.

De primeira, me sugeriu mudar para a Veja. Segundo ela, a Bravo seria incorporada pela Veja. Nada contra a primeira publicação em que trabalhei. Mas eu estava mal-intencionado. Ela me deu a lista de revistas para as quais eu poderia migrar. Revistas de viagem, saúde, beleza. Esperei, nada. Perguntei então encabulado se a Playboy estava nesse time. Ufa, estava. Fiquei perplexo por ela não ter me oferecido o leque de revistas masculinas. Vai ver tenho a voz de um pudico conservador. Eu poderia mudar para a revista agora sob nova gestão – do meu ex-colega Thales Guaracy, que promete reviver o tempo das grandes musas.

Mas então pensei na reação da minha mulher, da empregada, família, porteiros, hóspedes, vizinhos, do carteiro, da síndica! O fato seria comentado numa reunião de condomínio, eu poderia ser banido da área social: morador de meia-idade pervertido troca a Bravo pela Playboy, alta cultura por loiras ou morenas turbinadas, altas e mignons, em poses escandalosas e sugestivas. Vândalo condominial! Black Bloc do bloco 3.

Mudei de ideia e sugeri o dinheiro de volta, quando a atendente, de quem me arrependo de não ter pedido o telefone, para consultá-la em outras indecisões rotineiras, me sugeriu a revista Piauí. Claro, tudo a ver. O único senão: dez edições da Bravo equivaleriam a dez da Playboy, mas apenas a nove da Piauí. “A Playboy tem mulher pelada”, repliquei. “O papel da Piauí é de melhor qualidade”, justificou.

Fiquei contente em saber que nove Piauís valem dez Playboys. Nem tudo está perdido. No mais, pegará bem ter uma Piauí chegando em casa pelo correio. Minha mulher terá mais orgulho de mim. Minha empregada poderá fazer a faxina sem sustos. E para as visitas e hóspedes vai pegar bem ter uma pilha delas no canto da sala e outra no lavabo. Dependendo deles, teria de esconder a de Playboys. Mesmo revigorada.

O ex-editor da Bravo, meu amigo Armando Antenore, explicou numa carta sincera que a revista deu prejuízo desde quando passou para a Abril em 2004 (foi criada numa pequena editora, a D’Ávila): “Em termos comerciais, Bravo nunca gerou lucro – ao menos, não na Abril. A revista, embora contasse com o apoio da Lei Rouanet, operava no vermelho. Em bom português, dava prejuízo – ora de milhões, ora de milhares de reais”.

Afirmou que a revista contava com cerca de 20 mil assinantes e 8 mil compradores em bancas. No Facebook, a publicação tinha 53.600 seguidores. Perdeu leitores com o avanço das mídias digitais num ritmo menor do que outras. Era mais caro imprimi-la, por causa de formato e papel, e tinha poucos anúncios.

“Grandes anunciantes costumam demonstrar pequeno interesse por títulos dedicados à ‘alta cultura’. ‘O leitor de revistas do gênero, sendo mais crítico, tende a frear os impulsos consumistas’, explicam os publicitários, nem sempre com essas palavras”, resumiu Antenore, que diminuiu de 114 para 98 páginas, encolheu a redação, reajustou o projeto gráfico e editorial. Em vão. Vai fazer falta.

ANATOMIA DE UM ERRO

domingo, 14 de julho de 2013

 

 

Anatomia de um erro

Na coluna do último domingo fiz uma crítica à política de se trazer médicos estrangeiros, sem o devido processo de revalidação de diploma, para trabalhar nos locais mais distantes do País, onde hoje há grande dificuldade de fixar profissionais. Nessa semana, o governo colocou lenha na fogueira com o anúncio de medidas para tentar melhorar a saúde no Brasil.

Não acredito que aumentar a duração do curso de Medicina de seis para oito anos resolva a questão. Um aluno típico leva, em média, um ou dois anos para conseguir ingressar em uma faculdade, já que o curso continua hoje um dos mais disputados. Em uma universidade pública, demora ainda mais! Entre vestibular, faculdade e residência, com a nova duração, esse processo de formação poderia levar até 12 anos, o que dá tempo de fazer pelo menos três cursos regulares de graduação.

A situação cria também um “limbo” para os profissionais que efetuarem o primeiro ciclo, de seis anos. Eles teriam uma licença provisória, que seria efetivada depois de passarem dois anos atendendo no Sistema Único de Saúde (SUS). Como eles tomariam condutas, sem estarem amparados legalmente? Quem se responsabilizaria? De onde viria o dinheiro para pagar as faculdades? Muitas perguntas para um pacote que pretende salvar a saúde!

Mais: o plano seria válido a partir do ingresso nas faculdades de Medicina em 2015 e promete despejar 20 mil médicos no SUS a partir de 2021. Ou seja, até lá, o buraco continua e, eventualmente, será preenchido pelos médicos estrangeiros, que vão passar por uma capacitação relâmpago de três semanas (quanto tempo, não?).

O plano do governo promete criar mais faculdades e 12 mil vagas. É bom lembrar que muitas das faculdades que existem hoje não dão conta do recado, sem infraestrutura e corpo docente adequados, sem hospitais-escola para o aprendizado ideal, elas acabam formando médicos pouco preparados. São esses médicos que o governo planeja “despejar” no sistema público de saúde?

Vamos a algumas ideias? Se existe essa verba para saúde, por que não investir imediatamente no SUS? Mais equipamentos, mais segurança, melhor treinamento dos profissionais, ciclos de capacitação permanentes, salários adequados, atendimento em mais turnos, mais leitos e um sistema mais inteligente de ligação das unidades básicas com os hospitais de ponta podem ser algumas das medidas.

Em vez de aumentar o tempo da faculdade, por que não criar mais vagas de residência nas regiões mais distantes, com bolsas convidativas, para as áreas de saúde pública, medicina preventiva e medicina da família, que formariam médicos mais generalistas? Alunos poderiam passar parte do internato nesses locais, sob supervisão permanente.

Que tal usar a tecnologia (intranets, internet, supervisão online, em tempo real) para ligar os jovens médicos aos grandes centros de ensino, de maneira que eles não fossem deixados desamparados?

E, se em vez de tentar fixá-los por dois ou três anos, nos mais distantes rincões do País, não houvesse um sistema do tipo fly-in/fly-out? Assim, ficariam 15 dias na “base” e 15 dias em seu local de origem, estudando ou dando plantões em outras realidades. Haveria, assim, um revezamento de profissionais. Além disso, um plano de carreira poderia garantir que esses médicos fossem transferidos para outros centros à medida que tivessem mais tempo de serviço.

Para terminar, que tal um projeto que investisse verbas e esforços na melhoria das faculdades de Medicina já existentes (e principalmente naquelas que sabidamente têm problemas), em vez de sair criando cursos e vagas, sem nenhuma garantia de qualidade? Talvez mais realista e prático, o plano do governo não corra o risco de só perpetuar os erros e falhas que nosso sistema de saúde apresenta há décadas!

JAIRO BOUER – O Estado de São Paulo, 14 de julho de 2013

POVO CÁ, GOVERNO LÁ

terça-feira, 9 de julho de 2013

As manifestações demonstraram que a agenda deste governo está divorciada da agenda da população.

Pode-se argumentar que o povo nem sempre sabe o que quer, reivindica por vias transversas a satisfação de suas necessidades e que, até mesmo nas democracias, cabe aos dirigentes interpretar seus anseios e tratar de satisfazê-los, no que der, já que a política é a arte do possível.

No entanto, ao longo deste governo, em tantas e tantas áreas, não há essa interpretação. A maneira como os atuais dirigentes orientam as despesas públicas nada tem a ver com as aspirações da população.

Nos grandes centros urbanos, por exemplo, o trabalhador leva horas e horas diárias espremido em trens e ônibus ruins, sujeitos a paralisações e congestionamentos, que pioram todos os dias. Transporte público é uma indiscutível prioridade nacional.

E quais são as políticas do governo? É incentivar o crédito e reduzir impostos para compra de automóveis, que entulham ruas e avenidas das grandes cidades, à proporção de quase mil por dia só em São Paulo. É subsidiar o consumo de gasolina, um dos fatores que sangram inexoravelmente o caixa da Petrobrás, cujo resultado é mais congestionamento de trânsito e mais horas perdidas dentro de um veículo.

Em vez de mais metrô, mais ferrovias, mais rodovias e mais portos, o governo empurra o projeto do trem-bala que vai levar mais R$ 35 bilhões.

A população quer melhora dos serviços públicos. Em vez disso, o governo prefere despejar bilhões de reais no sustento de 39 ministérios, na construção e na ampliação de estádios de futebol, estes sim, no padrão Fifa de qualidade. Em vez disso, o governo prefere injetar R$ 10 bilhões do BNDES, que por sua vez, recebe transfusões diretas do Tesouro Nacional, para alimentar os projetos delirantes do grupo Eike Batista, até agora, como a presidente Dilma declarara em 2012, motivo de orgulho e exemplo a ser seguido pelo Brasil.

A população não pede necessariamente mais verbas para saúde e educação. Pede que os enormes recursos injetados nessas áreas sejam gastos com qualidade. Mas isso requer também qualidade de gerenciamento das despesas públicas, hoje altamente precária.

Como ficou claro nas manifestações, a população quer mão pesada contra a corrupção, que inferniza a administração pública e aumenta substancialmente os dispêndios nos investimentos do Estado. No entanto, a resposta do governo é a pretendida instituição do financiamento das campanhas eleitorais com recursos públicos. Com que resultado prático? Será que, além do financiamento privado e suas mazelas, que não terminarão, teremos o financiamento das campanhas eleitorais com recursos que, em última análise, serão tirados da educação, da saúde, de outros custeios e de investimentos públicos?

Antes de chegar ao governo federal, o PT proclamava a excelência do orçamento participativo, que determinava democraticamente a prioridade das despesas públicas. Uma vez lá chegando, desconsiderou as recomendações anteriores. As prioridades orçamentárias passaram a ser determinadas não mais pelas legítimas demandas do contribuinte, mas por fatores que reforçam a percepção de que o objetivo é a perpetuação no poder.

CELSO MING – O Estado de S.Paulo 9/7/13

 

A MORTE DO CAUDILHO

domingo, 10 de março de 2013

Mario Vargas Llosa

O comandante Hugo Chávez Frías pertencia à robusta tradição dos caudilhos que, embora mais presentes na América Latina que em outras partes, não deixaram de se assomar a toda parte, até em democracias avançadas, como a França. Ela revela aquele medo da liberdade que é uma herança do mundo primitivo, anterior à democracia e ao indivíduo, quando o homem ainda era massa e preferia que um semideus, ao qual cedia sua capacidade de iniciativa e seu livre-arbítrio, tomasse todas as decisões importantes de sua vida.

Cruzamento de super-homem e bufão, o caudilho faz e desfaz a seu bel prazer, inspirado por Deus ou por uma ideologia na qual, quase sempre, se confundem o socialismo e o fascismo – duas formas de estatismo e coletivismo – e se comunica diretamente com seu povo mediante a demagogia, a retórica, a espetáculos multitudinários e passionais de cunho mágico-religioso.

Sua popularidade costuma ser enorme, irracional, mas também efêmera, e o balanço de sua gestão, infalivelmente catastrófico. Não devemos nos impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de Hugo Chávez. São as mesmas que estremeciam de dor e desamparo pela morte de Perón, de Franco, de Stalin, de Trujillo e as que, amanhã, acompanharão Fidel Castro ao sepulcro.

Os caudilhos não deixam herdeiros e o que ocorrerá a partir de agora na Venezuela é totalmente incerto. Ninguém, entre as pessoas de seu entorno, e certamente em nenhum caso Nicolás Maduro, o discreto apparatchik a quem designou seu sucessor, está em condições de aglutinar e manter unida essa coalizão de facções, de indivíduos e de interesses constituídos que representa o chavismo, nem de manter o entusiasmo e a fé que o defunto comandante despertava com sua torrencial energia nas massas da Venezuela.

Uma coisa é certa: esse híbrido ideológico que Hugo Chávez urdiu chamado revolução bolivariana ou socialismo do século 21, já começou a se decompor e desaparecerá, mais cedo ou mais tarde, derrotado pela realidade concreta: a de uma Venezuela, o país potencialmente mais rico do mundo, ao qual as políticas do caudilho deixaram empobrecido, dividido e conflagrado, com a inflação, a criminalidade e a corrupção mais altas do continente, um déficit fiscal que beira a 18% do PIB e as instituições – as empresas públicas, a Justiça, a imprensa, o poder eleitoral, as Forças Armadas – semidestruídas pelo autoritarismo, a intimidação e a submissão.

Além disso, a morte de Chávez coloca um ponto de interrogação na política de intervencionismo no restante do continente latino-americano que, num sonho megalomaníaco característico dos caudilhos, o comandante defunto se propunha a tornar socialista e bolivariano a golpes de talão de cheques. Persistirá esse fantástico dispêndio dos petrodólares venezuelanos que fizeram Cuba sobreviver com os 100 mil barris diários que Chávez praticamente presenteava a seu mentor e ídolo Fidel Castro? E os subsídios e as compras de dívida de 19 países, aí incluídos seus vassalos ideológicos como o boliviano Evo Morales, o nicaraguense Daniel Ortega, as Farc colombianas e os inúmeros partidos, grupos e grupelhos que por toda a América Latina lutam para impor a revolução marxista?

O povo venezuelano parecia aceitar esse fantástico desperdício contagiado pelo otimismo de seu caudilho, mas duvido que o mais fanático dos chavistas acredite agora que Maduro possa vir a ser o próximo Simon Bolívar. Esse sonho e seus subprodutos, como a Aliança Bolivariana para as América (Alba), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Dominica, Nicarágua, San Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda, sob a direção da Venezuela, já são cadáveres insepultos.

Nos 14 anos que Chávez governou a Venezuela, o preço do barril de petróleo ficou sete vezes mais caro, o que fez desse país, potencialmente, um dos mais prósperos do planeta. No entanto, a redução da pobreza nesse período foi menor que a verificada, por exemplo, no Chile e no Peru no mesmo período. Enquanto isso, a expropriação e a nacionalização de mais de um milhar de empresas privadas, entre elas 3,5 milhões de hectares de fazendas agrícolas e pecuárias, não fez desaparecer os odiados ricos, mas criou, mediante o privilégio e o tráfico, uma verdadeira legião de novos ricos improdutivos que, em vez de fazer progredir o país, contribuiu para afundá-lo no mercantilismo, no rentismo e em todas as demais formas degradadas do capitalismo de Estado.

Chávez não estatizou toda a economia, como Cuba, e nunca fechou inteiramente todos os espaços para a dissidência e a crítica, embora sua política repressiva contra a imprensa independente e os opositores os reduziu a sua expressão mínima. Seu prontuário no que respeita aos atropelos contra os direitos humanos é enorme, como recordou, por ocasião de seu falecimento, uma organização tão objetiva e respeitável como a Human Rights Watch.

É verdade que ele realizou várias consultas eleitorais e, ao menos em algumas delas, como a última, venceu limpamente, se a lisura de uma eleição se mede apenas pelo respeito aos votos depositados e não se leva em conta o contexto político e social no qual ela se realiza, e na qual a desproporção de meios à disposição do governo e da oposição era tal que ela já entrava na disputa com uma desvantagem descomunal.

No entanto, em última instância, o fato de haver na Venezuela uma oposição ao chavismo que na eleição do ano passado obteve quase 6,5 milhões de votos é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez, à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram intimidar pela coerção e as pressões do regime e, nesses 14 anos, mantiveram viva a lucidez e a vocação democrática, sem se deixar arrebatar pela paixão gregária e pela abdicação do espírito crítico que o caudilhismo fomenta.

Não sem tropeços, essa oposição, na qual estão representadas todas as variantes ideológicas da Venezuela está unida. E tem agora uma oportunidade extraordinária para convencer o povo venezuelano de que a verdadeira saída para os enormes problemas que ele enfrenta não é perseverar no erro populista e revolucionário que Chávez encarnava, mas a opção democrática, isto é, o único sistema capaz de conciliar a liberdade, a legalidade e o progresso, criando oportunidades para todos em um regime de coexistência e de paz.

Nem Chávez nem caudilho algum são possíveis sem um clima de ceticismo e de desgosto com a democracia como o que chegou a viver a Venezuela quando, em 4 de fevereiro de 1992, o comandante Chávez tentou o golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. O golpe foi derrotado por um Exército constitucionalista que enviou Chávez ao cárcere do qual, dois anos depois, num gesto irresponsável que custaria caríssimo a seu povo, o presidente Rafael Caldera o tirou anistiando-o.

Essa democracia imperfeita, perdulária e bastante corrompida, havia frustrado profundamente os venezuelanos que, por isso, abriram seu coração aos cantos de sereia do militar golpista, algo que ocorreu, por desgraça, muitas vezes na América Latina.

Quando o impacto emocional de sua morte se atenuar, a grande tarefa da aliança opositora presidida por Henrique Capriles será persuadir esse povo de que a democracia futura da Venezuela terá se livrado dessas taras que a arruinaram e terá aproveitado a lição para depurar-se dos tráficos mercantilistas, do rentismo, dos privilégios e desperdícios que a debilitaram e tornaram tão impopular.

A democracia do futuro acabará com os abusos de poder, restabelecendo a legalidade, restaurando a independência do Judiciário que o chavismo aniquilou, acabando com essa burocracia política mastodôntica que levou à ruína as empresas públicas. Com isso, se produzirá um clima estimulante para a criação de riqueza no qual empresários possam trabalhar e investidores, investir, de modo que regressem à Venezuela os capitais que fugiram e a liberdade volte a ser a senha e contrassenha da vida política, social e cultural do país do qual há dois séculos saíram tantos milhares de homens para derramar seu sangue pela independência da América Latina.

Mario Vargas Llosa
llosa@estadao.com.br
www.llosa.com.br
tradução de Celso Paciornik
O Estado de São Paulo, 10 de março de 2013

TUDO PELO ELEITORAL

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

 

DORA KRAMER – O Estado de S.Paulo

Sob a direção da presidente Dilma Rousseff, efeitos especiais a cargo do ex-presidente Luiz Inácio da Silva e aplausos da arquibancada, o Brasil está assistindo à reprise de um filme cujo desfecho é conhecido: o prejuízo vence no final.

Economistas, empresários e especialistas no tema vêm alertando para os desacertos na condução da política econômica, para o excesso de intervencionismo estatal, para os efeitos nefastos da manipulação de dados, para o abandono, enfim, dos alicerces de uma estabilidade a duras penas construída desde o início da década dos 90.

O governo não lhes dá ouvidos. Ao contrário: menospreza os alertas, qualifica a todos como inimigos de um projeto de País “glorioso”, inovador e progressista. Nas palavras da presidente Dilma Rousseff, as críticas decorrem da “falta de compreensão dos conservadores”.

Na verdade, quem não parece compreender a distinção entre o que é bom para o País e o que é bom para o partido no poder é o governo, com sua clara opção por proporcionar satisfação imediata aos seus eleitores (reais e potenciais) em detrimento das bases sobre as quais foi construído o edifício da estabilidade.

Quais foram elas? Sistema de livre movimentação de preços, controle fiscal e foco firme e constante no combate à inflação.

Da segunda metade do segundo mandato de Lula para cá houve uma clara troca de prioridade. Deixou-se de lado o conceito de crescimento com estabilidade para privilegiar o agrado ao eleitor a qualquer custo, notadamente à chamada nova classe média que sustenta em alta a popularidade, obviamente rende votos e assegura a sobrevivência política não só do PT, mas de todo o espectro partidário de sua área de influência.

O preço congelado dos combustíveis agrada ao consumidor, ainda que ponha em risco o desempenho da Petrobrás; a redução das tarifas de energia agrada ao consumidor, ainda que leve a um aumento de consumo e comprometa as empresas de energia; a interferência no Banco Central para forçar a baixa de juros, mesmo quando seria necessária uma margem de autonomia para calibrar a demanda, agrada ao consumidor de bens a prestação, mas põe em risco a meta de inflação.

Preço baixo é bom e todo mundo gosta, mas tem um custo que não é visível (ainda) ao público. Uma hora aparece, e da pior maneira possível. Como para manter essa situação o governo tem que entrar com dinheiro, o resultado é o aumento do gasto público, o descontrole fiscal. Daí para a volta de um cenário de inflação alta, o perigo é concreto.

Trata-se de uma lógica populista que seduz o eleitor, rende vitória nas urnas. Em contrapartida, planta as sementes do desajuste que, mais dia menos dia, apresenta a conta.

Queira o bom senso que os atuais locatários do poder, a pretexto de “construir” um Brasil de faz de conta em nome de vitórias eleitorais, não levem o Brasil de volta aos tempos de desorganização interna, descrédito internacional e aos malefícios decorrentes das concessões ao imediatismo que provoca sensação de bem estar agora e adiante pode levar a pique o patrimônio de todos.

Adeus às ilusões. Os tucanos que ficaram encantados com as mesuras da presidente da República a Fernando Henrique Cardoso no início do governo acabaram de ver a vida como ela é.

No rugir do palanque, Dilma Rousseff não teve dúvida: “Não herdamos nada, construímos tudo”, disse, compartilhando a versão criacionista sobre o surgimento do Brasil sob a ação divina do PT.

Esses tucanos, entre os quais se incluem diplomatas, alguns intelectuais e até gente inteligentíssima na economia (pais do real), mas ingênua na política, chegaram a considerar seriamente os gestos de Dilma como sinal de que ela logo se afastaria de Lula.

DORA KRAMER – O Estado de S.Paulo, 24 de fevereiro de 2013

 

A FARSA CHAVISTA

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

 

 

Mac Margolis – O Estado de S.Paulo
Para quem teima em chamar de democracia a Venezuela na era de Hugo Chávez, os últimos dias têm sido um desafio. O lider reeleito permanece em Cuba, no seu leito hospitalar, ora se convalescendo, ora agonizando – escolhe você a sua versão – de um câncer.

O fato é que, além da cúpula caraquenha, dos irmãos Raúl e Fidel Castro e da equipe médica de Havana, ninguém mais sabe e nada se pode afirmar com certeza a respeito do estado verdadeiro do paciente venezuelano.

Desde o dia 11 de dezembro, não houve nenhum pronunciamento oficial, tuíte ou sequer imagem do presidente venezuelano que, depois de tanto garantir que estava curado de um câncer misterioso, voltou às pressas à mesa de cirurgia cubana. Com o “imprevisto”, o presidente eleito foi declarado temporariamente indisponível e a sua posse, marcada para o dia 10, acabou adiada.

Nesse meio tempo, o país continua na mão da junta bolivariana, sob a guarda de Nicolás Maduro, o vice-presidente, cujo mandato tecnicamente acabou, mas que insiste no cargo, teleguiado pelo comandante invisível.

Indefinição. Se na União Soviética o stalinismo fortaleceu-se apagando dos retratos oficiais a imagem de muitos camaradas indesejados, atualmente, a boligarquia chavista agarra-se ao poder evocando a vontade do presidente fantasma. Cada um com sua própria maquiagem.

Chávez pode estar vivo ou não, mas a democracia venezuelana, que até na gestão chavista sempre manteve certas aparências – como eleições populares e liberdade tutelada de expressão -, já caducou. Exagero dos neoimperialistas? Pergunte aos produtores da Globovisión, o canal de televisão independente, um dos poucos críticos do governo, que foi proibido de transmitir um debate sobre as regras constitucionais de sucessão.

Talvez por isso, a comovente manifestação popular da última quinta-feira nas ruas de Caracas, convocada no lugar da posse, tendia mais para um réquiem sobre um herói tombado do que a comemoração de um governo renovado.

Populares às lágrimas alçaram bonecos do líder pintado em cartolina. Caças da Força Aérea venezuelana costuraram os céus. O animador de televisão, Wilson Vallenilla prostrou-se de joelhos na terra para solidarizar-se com o líder adoentado.

O presidente boliviano, Evo Morales, relembrou, em tom de veneração, a evolução da receita petroleira do longo do governo chavista, enquanto Maduro ameaçou quem ousasse desafiar o legado bolivariano. “Não haverá direita apátrida que possa manchar a marca do comandante Hugo Chávez”, declarou o ex-chanceler.

Para onde vai o governo acéfalo não se sabe. Como a oposição política e juristas tarimbados não se cansam de lembrar, a sucessão pisoteou a Constituição. De acordo com o Artigo 233 da Carta, o impedimento absoluto do presidente eleito antes da sua posse confere o poder ao presidente da Assembleia Nacional, que, por sua vez, deve convocar novas eleições gerais no prazo de 30 dias.

No entanto, nas entrelinhas da Carta, redigida por uma Assembleia Constituinte loteada de chavistas, há brechas oportunistas. Uma delas dá ares de legalidade à manobra bolivariana. Em caso de impedimento “temporário”, o presidente eleito pode ser declarado provisoriamente ausente (Artigo 234) e a sua posse adiada por até seis meses. Só que, por essa via, quem assume seria também o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello – e não Maduro, cujo primeiro mandato como vice terminou no dia 10.

No entanto, o Tribunal Superior de Justiça (TSJ), de maioria chavista, inovou ainda mais ao declarar desnecessária a posse presidencial, com o argumento de que Chávez é sucessor dele mesmo. Por isso, o rito da posse seria um mero formalismo (leia-se, firula burguesa).

No cálculo chavista, já que o povo votou em Chávez, é o povo que toma posse no seu lugar. Quem garante é a cúpula governante, que se diz ungido do líder. Assim, há uma certa consistência na lógica tortuosa bolivariana, antes e depois de Chávez. Na Constituição venezuelana, vale o escrito. Pelo menos até que o poder de momento escreva outra coisa.

Mac Margolis
ESTADÃO.COM.BR/Internacional
13 de janeiro de 2013 | 2h 04

 

GATO E SAPATO

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

 

Eliane Cantanhêde

Gato e sapato

BRASÍLIA – Há tempos os governos fazem do Congresso gato e sapato, mas, agora, há uma diferença. Quando se lê que os “líderes governistas” maquinam isso ou aquilo, a referência não é, necessariamente, aos líderes do governo Dilma, e sim aos amigos do ex-presidente Lula.

O fato é que esses líderes faziam e continuam fazendo tudo o que seu mestre Lula mandar. Daí o enorme poder de Rosemary Noronha, a Rose, que manteve imenso poder por causa de Lula, não por delegação de Dilma.

Com a mesma dedicação com que deram um jeito de empurrar Paulo Vieira goela abaixo da ANA (a agência de águas), mesmo depois de rejeitado duas vezes, esses líderes atuam agora para impedir que o tal Paulo Vieira dê explicações ao Congresso Nacional e à sociedade brasileira.

Alguém -adivinhe quem?- não vê nenhuma graça em que Vieira possa falar sobre os poderes extraterrenos de Rose, os tentáculos dele próprio em águas turvas federais e o aparelhamento das agências reguladoras (nem elas escapam). Além da ANA, sabe-se até aqui que o esquema infiltrou-se na Anac (aviação civil) e na Antaq (transportes aquaviários). Pode ter mais…

É também com a mesma imensa dedicação, aliás, que os líderes e os jovens parlamentares governistas mergulharam fundo na CPI do Cachoeira, não para investigar e desvendar, mas para cumprir as ordens do seu mestre e fustigar opositores e adversários, chegando ao cúmulo de perseguirem até o procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Mas, se os governistas se adequam ao papel de gatos, é mais incompreensível como os oposicionistas se conformam em serem sapatos.

Afora o onipresente líder tucano no Senado, Álvaro Dias, quem é que se opõe às nomeações impostas por Rose, às manobras para impedir o depoimento de Paulo Vieira, à lambança da CPI? Dizem que há até presidenciáveis no Senado. Se há, não estão visíveis a olho nu. Ou não sabem fazer oposição, ou têm medo.

Eliane Cantanhêde                   Folha de São Paulo, 30 de novembro de 2012

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